domingo, 11 de fevereiro de 2018

The Disappearance of Haruhi Suzumiya

AVISO: Essa é uma continuação da análise de The Melancholy of Haruhi Suzumiya. Se ainda não leu a primeira parte, clique aqui. E novamente, spoilers à frente.

"Parecer", "ter a impressão de algo"... Essa é uma palavra que usei constantemente na análise anterior. Será que meu desprazer estava me fazendo enxergar até os momentos relevantes com olhares tendenciosos? Será que algumas de minhas impressões estavam erradas ou precipitadas? Essas perguntas seriam respondidas poucos dias depois de terminar a segunda temporada, quando eu estava revoltado com a decepção que Haruhi veio a ser...


Em 2010 foi lançado The Disappearance of Haruhi Suzumiya, um longa-metragem de 2 horas e 41 minutos, o segundo maior filme animado da história. Coloque-se na minha situação: você vê que ainda falta assistir a um filme com quase TRÊS HORAS de duração de uma obra que quase chegou a odiar... É praticamente impossível você não ficar de saco cheio, certo?

Errado. Extraordinariamente errado. Eu tinha lido comentários que diziam que o filme era superior à série e como essa era apenas um aquecimento para o longa, mas não imaginei que fosse num nível tão assombroso. Esse filme é algo tão grandioso e fantástico que conseguiu mudar minha visão sobre a obra de Haruhi como um todo.

Mas o que o faz ser tão incrível assim? Como um simples filme conseguiu transformar a minha opinião de algo que eu havia desprezado? Primeiro que ele tá longe de ser apenas um s
imples filme, tanto que o assisti duas vezes em menos de 24h. Portanto, vamos entrar nos detalhes de por quê Disappearance é uma verdadeira obra-prima.

O FILME

Para iniciar, um pouco de lógica. "Se você amou esse filme, é porque ele é diferente da série, né?" Exato. Completamente diferente. O filme começa como um episódio normal do anime – eu até fiquei "ughhhh, lá vamos nós de novo" –, até que, depois de 15 minutos, ele faz uma curva de 180° e entra em um território inexplorado. O clima muda. O ritmo muda. O estilo muda. Tudo muda.

Mas sabe aquilo que mais muda? Os personagens. Grande parte da minha experiência negativa com a série se deu por conta deles. Então o que esse filme faz? Ele manda o Kyon para um mundo alternativo em que a SOS Brigade não existe e nenhum de seus membros o conhece. Eles aparecem como se fossem novos personagens. Com isso, não temos mais a Mikuru gemendo a cada segundo e nem a Haruhi sendo uma garota escandalosa e manipulativa. Isso torna a experiência imensuravelmente mais agradável.

Tá vendo esse sorriso? Você só vai ver isso no começo do filme e depois nunca mais.

Esse talvez seja o maior motivo deste filme ter uma história tão envolvente. Gostando ou não da SOS Brigade e de seus membros, eu estava habituado com as doideras do grupo e, de uma hora pra outra, ele simplesmente não existe mais! A Mikuru não reconhece o Kyon e a personalidade da Yuki se torna o oposto completo. Eu me peguei esperando com ansiedade pelo momento em que a Haruhi apareceria, pois queria ver o quanto ela havia mudado nessa nova linha do tempo. Por mais que pra mim o sumiço da brigada tenha sido um certo alívio, não deixa de ser uma situação intrigante.


Mas essa está longe de ser a única qualidade do roteiro. Algo que adoro em obras de time travel é quando revisitam momentos explorados anteriormente, assim como em De Volta Para o Futuro Parte II, quando o Marty volta ao mesmo passado que já havia visitado nos anos 50. São mostrados novos detalhes acerca daquele momento – basicamente uma continuação direta do momento – e vemos o personagem assistindo a ele mesmo no passado.

Essa abordagem é encontrada em Disappearance quando o Kyon é mandado de volta ao passado ao dia em que ajudou a Haruhi pequena a desenhar símbolos no chão de uma escola. Nisso, fui surpreendido novamente, pois, como falei na análise da série, achei que o episódio da 2ª temporada que mostra esse evento fosse avulso e deslocado, com o mínimo de relevância à história, mas acontece que ele é um ponto chave para os eventos desse filme.


Na realidade, o longa me fez perceber como eu estava equivocado a respeito de certos acontecimentos e detalhes do anime, especialmente em relação à Yuki e à Haruhi, sobre as quais falarei em detalhes ao longo do texto. Parece que a série foi feita já com o filme em mente, como se só existisse para te preparar para ele. A abertura da 1ª temporada fundamenta minha teoria, mostrando brevemente eventos do filme, sendo que foi lançada 4 anos antes. A personagem da Mikuru, aparentemente inútil durante toda a série, mostra a sua importância na história da obra inteira (série + filme) – entendemos o motivo dela ser uma viajante do tempo.


Quando houve aquela reviravolta no anime da Asakura ter tentado matar o Kyon, eu não fiquei impressionado, mas se não fosse esse evento, a volta dela nesse filme não teria impacto algum. No momento em que ela surge na sala de aula, a reação de choque do Kyon foi a mesma que a minha, até estremeci. Apesar da personagem também estar com outra personalidade, há uma certa tensão em toda cena que ela está presente, uma incerteza no ar. Cada sorriso e diálogo ambíguo dela me deixava apreensivo, reforçados por um trabalho formidável de composição de cena que aumenta a aura enigmática de sua figura – inclusive, a direção desse filme é fenomenal, mas daqui a pouco eu abordo isso, uma coisa de cada vez.

Plano centralizado nela, com cores frias e iluminação suave. A porta do elevador lentamente se fecha e esconde a sua figura, enquanto ela sorri e acena. Cut to black.

Contudo, apesar de todos os personagens fora o Kyon estarem diferentes, uma se torna literalmente outra pessoa nesse filme: Yuki Nagato. Ah rapaz, me dá até calafrios começar a descrever a participação dela nisso. Enquanto na série ela era praticamente um robô inexpressivo, na realidade alternativa apresentada em Disappearance temos uma garota tímida e envergonhada cuja tamanha expressividade transmite toda a sua fragilidade.


Na série eu era indiferente quanto à personagem, mas no filme ela ganhou meu coração de um jeito que chega a ser difícil de descrever. Vê-la demonstrar sentimentos e emoções depois de duas temporadas a enxergando como uma parede sem vida é algo que eu não estava preparado, foi um impacto tremendo. A maneira como ela transmite suas intenções quase que sem o uso de diálogos, apenas por meio de expressões faciais e ações acanhadas, é sublime.

O único momento em que ela sorri. Uma expressão tão acolhedora que se fixa em sua mente para sempre.

Acontece que a Yuki é a grande estrela do filme, pois toda essa situação da realidade alternativa acontece por conta dela (eu avisei que teriam spoilers :v). Durante a série, em alguns momentos esparsos, ela mostrava leves esboços de emoção, como quando pareceu se divertir reprogramando o jogo em Day of Sagittarius e quando demonstrou interesse por fogos de artifício e máscaras em Endless Eight, além do impacto de ter vivenciado 15 mil vezes as mesmas duas semanas. Esses e outros eventos ocasionaram erros em sua interface. Mas o que são exatamente esses erros? Deixa que o nosso amigo Kyon te explica:
- O que é esse incompreensível gatilho que causou o comportamento anormal da Nagato? O que foram esses erros que se acumulavam a cada vez mais em seus dados? É claramente algo completamente clichê. Você não poderia entender, mas é algo que eu entendo. Sabe, Nagato... Se chamam 'sentimentos'.

Assim como ele coloca, é "completamente clichê", mas é algo tão bem construído, de uma execução formidável, que consegue ser legitimamente emocionante. A Yuki mudou a realidade para que pudesse sentir emoções de verdade, para que pudesse ter esses tais sentimentos que ela tanto observava, mas que nunca conseguia compreender. Ao fim do filme, mesmo de volta à realidade em que é uma interface humanoide, você enxerga a personagem como uma pessoa de verdade, digna de empatia.


Como falei acima, essa situação da Yuki me fez enxergar mais qualidades na série. Mas ainda assim, não a considero uma obra coesa, pois está cheia de problemas. No entanto, isso me parece intencional, premeditado. Acho que a minha frustração com a série foi o fator principal de eu ter ficado boquiaberto com Disappearance, pois estava com expectativas baixas, esperando algo no estilo do que me foi apresentado ao longo dos episódios, mas o que o filme entrega vai milhas e milhas além disso.

Creio que essas pontas soltas para incomodar o telespectador foram deixadas de propósito. Isso é mais reforçado ainda com o arco Endless Eight. Parece que o fizeram pensando "Me odeiem! Me odeiem!", a fim de que, quando lançassem o filme, todos ficassem embasbacados com tamanha qualidade. Deu certo, afinal, eu não sou o único que quase detestou a série e considera The Disappearance of Haruhi Suzumiya uma obra-prima.

ARTE E ÁUDIO

Não bastasse o roteiro incrível, a produção também é beneficiada por um trabalho artístico formidável. O pulo de qualidade em relação ao visual e à direção da série é enorme. Diferente da série que faz uso de cores vibrantes à maior parte do tempo, o filme inteiro tem um tom acinzentado, com cores mais frias. Isso cria uma atmosfera de desolação que condiz com o estado mental do Kyon diante do que está vivendo e com a época em que se passa a obra: o inverno.


Disappearance é um filme com um ritmo lento, chegando a ser contemplativo às vezes, mas tudo para te deixar imerso na pele do Kyon durante essa situação desconfortável que está vivendo. São diversos os planos dele vagando sem rumo e pensando, todas as cenas de interação com a Yuki são repletas de silêncio e diálogos espaçados e, mesmo depois da metade quando o personagem começa a progredir em sua missão, a obra nunca assume um ritmo acelerado, a fim de que você absorva cada momento como se fosse o Kyon.


A direção explora diversos enquadramentos em movimentos triviais sutis, além de planos longos que poderiam ser menores se estes fossem excluídos, como a Yuki abaixando para pegar o cachecol dela e o pendurando, ou o Kyon levantando da cadeira e girando em volta da mesa para no fim se sentar novamente, mas estes tornam os momentos mais realistas e humanos e, no caso do último exemplo, nos faz sentir a inquietação dele com a situação.

Esse filme tem tantas cenas marcantes e impactantes que eu tenho vontade de escrever textos individuais analisando em detalhes cada uma dessas e todos os aspectos que as tornam magníficas, em especial a direção e a animação. Certamente farei isso futuramente, aí atualizarei esse review com os links para complementar a leitura.

Esse momento, quando o Kyon encontra a Yuki alternativa, me fez até lacrimejar de tão intenso que é. Possivelmente a melhor cena do filme inteiro, o que é dizer MUITO.

A parte sonora é de suma importância em proporcionar essa imersão com a obra. Se você leu alguma análise minha das séries do World Masterpiece Theater, sabe como eu admiro o uso do silêncio em animações. Eu jamais imaginei que, neste filme de 2 horas e 41 minutos, mais da metade dele fosse em silêncio, ou seja, sem o uso de trilha sonora, apenas sons de ambientação e diálogo.

Sinceramente, isso me fascina num nível absurdo. Essa abordagem é uma das melhores maneiras de te deixar imerso em um trabalho, especialmente durante os momentos mais introspectivos. A cena do primeiro encontro entre o Kyon e a Yuki alternativa é um exemplo perfeito de um momento cujo impacto é consideravelmente aumentado pela ausência de uma música de fundo – o silêncio torna a tensão mais tangível. O mesmo pode ser dito para diversas outras cenas do filme, como quando as mensagens da Nagato real estão sendo exibidas na tela preta do monitor e tudo o que pode ser escutado é um leve chiado do computador. Me dá até calafrios. Muitos.

Acho que sentirei calafrios sempre que ler a palavra "READY" em caixa alta depois de assistir esse filme.

Mas o uso de músicas do filme também é ótimo. Diferente da série em que a trilha é composta por uma plenitude de gêneros, as composições do longa são exclusivamente músicas clássicas. Grande parte dessas são orquestras calmas e leves, mas têm algumas (poucas) pomposas e outras pesadas. Uma das composições utilizadas é do pianista francês Erik Satie, do século XIX, chamada Gymnopédies. Uma peça linda e melancólica, as cenas íntimas em que é usada adquirem uma beleza ainda maior, como durante a conversa do Kyon com a Yuki no teto do hospital ao fim do filme.

                                   

KYON, EU, VOCÊ

Ao longo da primeira seção ficou explícito como o filme me fez enxergar diversos detalhes da série que eu acabei ignorando, mas a peça fundamental dessa mudança de opinião é o Kyon. Durante as duas temporadas, ele já era o personagem que mais me agradava por ser o mais devidamente explorado, porém Disappearance me fez perceber como ele é um dos melhores protagonistas masculinos da história dos animes. Isso se deve ao fato de que ele é uma representação perfeita do espectador. Ele é quem dita a sua experiência com a obra e é com quem você se relaciona em relação ao que está assistindo.

Ele não entende bulhufas do que a Nagato e os outros falam sobre organizações espaciais, seres psíquicos etc, e nem se esforça em entender, assim como nós; a urge que sente em acabar com o loop temporal em Endless Eight é igual à nossa enquanto assistimos; e quando não aguentamos mais ver os abusos que beiram o inconcebível da Haruhi durante a produção do ""filme"", chegando a drogar uma menina sem o consentimento dela, ele vai lá e a confronta, quase chegando ao ponto de agredi-la.



Apesar do arco da produção do ""filme"" ser insuportável, essa cena e toda sua tensão é um desfecho satisfatório.

O que nos leva à reviravolta em relação à minha opinião sobre a série. Em Disappearance, o Kyon vai parar nessa linha do tempo paralela em que não existe a SOS Brigade, ou seja, tudo o que lhe incomodava se foi e agora ele pode viver uma vida normal, sem ser abusado pela Haruhi. Para mim isso foi um baita alívio, pois os maiores problemas deixaram de existir, mas para o Kyon nem tanto. Então ele me situa em sua situação com um monólogo fantástico:

- Considere o seguinte: há uma pessoa muito triste em um determinado lugar. Até que ele abre seus olhos e o mundo inteiro se transforma diante dele. Um mundo tão maravilhoso que nem se o chamasse de utopia o faria justiça. Infelicidade jamais recairá sobre essa pessoa novamente. Em uma única noite, ele foi levado do Inferno ao Paraíso. Mas isso foi feito sem o consentimento da pessoa. Ela não tinha ideia alguma de quem o levou, era um mistério completo. Ficou sem saber, para sempre, quem o fez e por quê... Então, essa situação deveria deixar a pessoa feliz ou triste?

Foi aí que percebi como eu não deveria ficar feliz com o sumiço da SOS Brigade. Antes desse monólogo, o Kyon já havia encontrado a Yuki e a Mikuru e ambas as duas estavam diferentes. Fiquei ansiando pelo momento em que ele encontraria a Haruhi para ver como ela estava e se conseguia uma pista de como sair dessa situação. Sim, eu queria que essa personagem que eu odiava aparecesse novamente. Eu deixei de enxergar o filme como uma simples produção audiovisual e passei a vê-lo como uma experiência, fiquei imerso na jornada do Kyon em fazer as coisas voltarem como eram antes.

E quando os dois se encontram... Calafrios por todo o corpo.

Quando o personagem volta ao passado para consertar as mudanças no tempo e tem aquela reflexão de que poderia ter continuado nessa realidade alternativa vivendo uma vida comum, mas que a sua vida de verdade se encontra frequentando a SOS Brigade, aquele turbilhão de emoções que se passavam dentro dele foram invocadas em mim de tão poderoso que é esse momento, graças a essa construção indefectível do personagem e a um trabalho de direção e animação de tirar o fôlego.



E esse vínculo é diferente do vínculo emocional que eu tenho com os personagens dos animes do World Masterpiece Theater, em que eu compartilho dos mesmos sentimentos que eles sentem. Com o Kyon, é como se a maneira como ele experiencia os acontecimentos fosse igual à minha, desde seu desprazer inicial pela Haruhi e pelas circunstâncias dos ocorridos na série, até seu desespero por estar em uma realidade diferente e sua derradeira realização no filme.


Talvez o grande feito desse vínculo tenha sido como o Kyon conseguiu mudar minha opinião a respeito da Haruhi. Sendo quase a protagonista, o fato de eu não gostar dela era um dos meus principais problemas com a obra. Porém, perto do fim do filme, o Kyon me fez perceber o que há por baixo dessa personalidade horrível da personagem.

Apesar de não parecer, a Haruhi tem um lado humano e isso fica explícito na cena em que é mostrada fragilizada, encolhida em um saco de dormir, dormindo ao lado da cama onde o Kyon está hospitalizado, esperando sua melhora. Ele acaricia seu rosto carinhosamente, mostrando como a Haruhi, apesar de tudo, é mais uma garota humana do que é uma divindade.

E o mais importante: esse lado humano apenas começou a surgir quando o Kyon entrou em sua vida.

Esse momento me remeteu a outras ocasiões que a personagem mostrou uma face diferente da usual, como nos episódios Live Alive, Remote Island Syndrome e Someday in the Rain, em que ela demonstra sinais de afetividade e até mesmo se preocupa com outras pessoas e tenta ajudá-las, além do desfecho do arco da produção do ""filme"", em que ela percebe as atrocidades que estava fazendo com suas amizades após o Kyon quase agredi-la. No fim, a Haruhi é apenas uma garota excêntrica com uma personalidade difícil de lidar, mas que, no fundo no fundo, tem um bom coração – ela apenas não é boa em demonstrar isso.

CONCLUSÃO

Agora você me pergunta, "você assistiria à série uma segunda vez depois do filme?". Com certeza. Agora assistirei com outros olhos. Quem sabe eu não encontre novas qualidades e ligações com o filme que passaram despercebidas... "Vale a pena passar pelo sofrimento de ver as duas temporadas só para assistir ao filme?". Imagine que estou do seu lado, inspirando ar durante alguns segundos, até que eu paro e solto um "SIM!!!!!" do fundo dos meus pulmões.

Não existe palavra melhor que obra-prima para descrever The Disappearance of Haruhi Suzumiya, uma produção que se sobressai em todos seus aspectos, desde o roteiro, a animação, a direção, a parte sonora, o desenvolvimento de personagens e que, de quebra, ainda muda a sua opinião a respeito da série que está atrelada e de todo seu universo. Se tornou meu terceiro filme animado favorito de todos os tempos, atrás apenas da barreira impenetrável formada por Sussurros do Coração (meu review) e O Serviço de Entregas da Kiki.


Ao escrever essa conclusão depois da minha experiência negativa com as duas temporadas, sinto como se a Haruhi tivesse alterado o mundo ao meu redor para mudar minha opinião. Será que o poder dela transcende o domínio da ficção e afeta a realidade? É uma possibilidade, mas só sanarei essa dúvida se aliens, seres psíquicos e viajantes do tempo aparecerem em minha vida...

-por Vinicius "vini64" Pires

Leia também minhas outras análises sobre animes da Kyoto Animation:

The Melancholy of Haruhi Suzumiya


A Kyoto Animation foi fundada em 1983, mas só foi produzir sua primeira série em 2003. Contudo, foi em 2006 que o estúdio se consolidou como um dos maiores de animação do Japão com uma produção que se tornou um fenômeno local e, na internet, mundial. Estou falando de The Melancholy of Haruhi Suzumiya (Haruhi Suzumiya no Yuutsu), adaptação da série de light novels do escritor Nagaru Tonigawa.

Algo a se admirar em Haruhi é a ousadia dessa adaptação. Os episódios da primeira temporada foram lançados em ordem não-cronológica, a segunda temporada tem um arco que é basicamente o mesmo evento sendo repetido em oito episódios e o filme é o segundo maior longa-metragem animado de todos os tempos com 2 horas e 41 minutos de duração. Mas será que o conteúdo da obra consegue sustentar essa ousadia?

AVISO: Essa análise contém spoilers da série inteira. Diferente da maioria de meus textos, nesse eu discorrerei diretamente sobre diversos eventos do anime. Recomendo ler apenas se tiver assistido às duas temporadas e ao filme.

PERSONAGENS

A personagem cujo enredo gira em torno é a Haruhi Suzumiya, uma garota bela e atraente que, à primeira vista, parece uma estudante normal do ensino médio, sempre entediada. Porém, poucos sabem que de baixo dessa fachada há uma personalidade excêntrica de alguém que está em busca de aliens, viajantes do tempo e seres psíquicos para fugir do ordinário maçante do mundo real. Mas o que ninguém imagina é que Haruhi é uma Deusa com o poder de modificar o mundo de acordo com suas vontades. Nem sequer a própria tem a mínima noção da existência dessa habilidade.


Apesar da série levar o nome da Haruhi em seu título, ela não é exatamente a protagonista. Quem ocupa este papel é o Kyon. Ele é um rapaz comum, sem nenhuma característica marcante, um tanto sarcástico, que mostra um leve interesse pelos papos abstratos da Haruhi. É ele quem dá a ideia a ela de criar um clube para procurar as paranormalidades que tanto lhe fascinam – apesar de tê-lo feito ironicamente – e assim nasce a SOS Brigade!

E então começam seus dias de escravidão nas mãos de uma Deusa.

Com esse poder de inconscientemente alterar a realidade ao seu redor, Haruhi faz com que aliens, viajantes do tempo e seres psíquicos realmente apareçam em sua vida! Mas ela não sabe da existência destes, pois a função deles é observar de perto as ações da garota e impedir que faça alguma alteração drástica no mundo, já que ela tem poder suficiente para isso e seu temperamento não é lá muito estável.

O alien em questão é a Yuki Nagato, uma interface humanoide criada pela Entidade Integrada de Dados (Data Integration Thought Entity), uma organização cuja finalidade é evoluir por meio das observações que fazem do comportamento humano e, em especial, da Haruhi. Nagato é caracterizada como uma garota taciturna, metódica e leitora assídua de livros. Ela tem o poder de manipular o tempo e espaço.


A viajante do tempo se chama Mikuru Asahina, uma amável mocinha tímida e fofa. Ela foi trazida a força à SOS Brigade pela Haruhi devido ao seu rostinho bonito e corpo voluptuoso, já que “todo clube precisa de um mascote que atraia a atenção do público” – palavras da chefe da brigada – e é constantemente colocada por essa em situações vergonhosas em que deve usar roupas um tanto reveladoras.


Por fim, o ser psíquico que também é trazido a força ao clube pelo simples fato de ser um “misterioso estudante transferido” é o Koizumi Itsuki. Sempre sorridente, ele faz de tudo para agradar a Haruhi a fim de nunca deixá-la insatisfeita ou enfurecida, pois isso pode trazer resultados negativos para a humanidade. Ele faz parte de uma agência de seres psíquicos cuja missão é justamente combater esses resultados negativos quando eles inevitavelmente acontecem.


Outros personagens incluem a hiperativa Tsuruya, a carismática Ryoko Asakura, a fofa irmã do Kyon e os dois colegas de classe dele. Apesar de aparecerem o suficiente para você saber que existem, não tenho muito o que falar sobre eles, pois não são exatamente relevantes (exceto a Asakura) e são pouco explorados... Mas por acaso os personagens principais recebem um tratamento tão superior a estes? A resposta não é muito agradável...

ARTE E ÁUDIO

Mas calma, a resposta pode esperar um pouco. Primeiro deixe-me falar sobre a parte audiovisual, a qual praticamente não tenho defeitos a apontar, como é de se esperar de uma produção da KyoAni (xiii, já virei fanboy).

A arte da série não chegou a me impressionar como em outras produções do estúdio, mas não deixa de ser um trabalho competente e visualmente agradável de se assistir, especialmente durante a 2ª temporada. A animação de certos trechos é tão fluída que parecem terem sido animados a 60fps, apesar de ser só impressão. O uso de CG, mesmo sendo da década passada, chega a ser melhor executado do que em muitos animes recentes, esteticamente falando.


A trilha sonora de Haruhi é bem eclética, com composições que variam entre eletrônica, rock, jazz, atmosférica e até mesmo gêneros mais incomuns de se ver em animações como bossa nova e música experimental. Devo dizer que poucas músicas me marcaram enquanto assistia a série, mas quando parei pra ouvir a trilha sonora separadamente, notei como ela é incrível, cheia de peças agradáveis de se escutar diversas vezes.

                   

Uma música que considero uma das melhores da série é essa aqui, da luta entre a Asakura e a Nagato. Eu adoro quando unem música eletrônica com instrumentos eruditas, como é o caso dos violinos e violoncelos aqui. Tem uma análise interessantíssima da composição que li no YouTube que descreve a relação dos instrumentos com o que acontece em cena. Não poderia concordar mais.

"É quase como se os violinos representassem a Asakura, enquanto a parte do sintetizador representa a Nagato, e tudo junto representa a luta. Apenas algo que notei enquanto assistia".

"Observação interessante. Apreciei mais a música ao ler isso. A Nagato representa o sintetizador frio, sem emoção, complexo e articulado. A Asakura representa a emoção, beleza e as notas erráticas das cordas".

Como de praxe, também adoro as aberturas e encerramentos. A minha favorita é a 2ª abertura, Super Driver, mas não há dúvidas de que a canção mais icônica é a do 1º encerramento, Hare Hare Yukai. Se você era um fã de anime na década passada, certamente a conhece. Se tornou um fenômeno cultural na internet, graças à música cativante e à dança hipnotizante. Até eu fico com vontade de aprender a coreografia, mas não creio que seja uma boa ideia...

A SÉRIE (primeiras impressões)

1ª Temporada (2006)

Muito bem, vamos ao que interessa. Eu assisti a série na ordem não-cronológica. Isso é importante ser ressaltado, pois nessa seção falarei sobre os episódios seguindo essa ordenação. Minha primeira impressão foi de que essa “não-cronologia” foi definida de maneira completamente arbitrária, exceto pelos dois primeiros e dois últimos episódios. Parece que escolheram lançar os capítulos assim só para serem diferentões.

Fora o arco de seis episódios (The Melancholy of Haruhi Suzumiya), os demais mostram eventos aleatórios que quase não se conversam entre si. Por conta destes a primeira temporada tem praticamente uma estrutura episódica, em que não importa a ordem que você os assista e deixar de assistir alguns não faz diferença alguma. Mas ok, hora de começar falando sobre As Aventuras de Mikuru Asahina Episódio 00, o fantástico ""filme"" produzido pela SOS Brigade!


Já imaginei que Haruhi seria uma obra ousada e essas suspeitas só se confirmaram com o primeiro episódio: um filme de estudante totalmente cru, mal editado, cheio de furos no roteiro e erros na gravação. Souberam executar perfeitamente a péssima execução de uma equipe amadora trabalhando com vídeo. Não sei se um episódio com um fator WTF desses é o melhor jeito de se iniciar uma série, mas funcionou para mim.

A maneira imponente como a Haruhi é introduzida, se virando lentamente, surgindo da luz, o foco no ULTRA DIRECTOR em seu braço, também é impressionante. O segundo episódio (Melancholy I) nos introduz competentemente à personalidade da personagem, com toda a sua excentricidade e desejos paranormais.


Porém, não demora muito para os problemas aparecerem, começando pelo fanservice. Em apenas três episódios fica aparente que a personagem da Mikuru só serve para ser explorada sexualmente e ficar gritando indefesa. Tem até aquele clichê de um desconhecido pegar nos seios dela. Ridículo e embaraçoso até para quem está assistindo.


Aí começam as revelações que moldam a história, como o fato da Haruhi ser uma Deusa e dos outros membros da brigada serem um alien, uma viajante do tempo e um ser psíquico. Pensei, "uau, quanta reviravolta em um episódio só. Será que isso vai conseguir me prender?". Já vou me adiantar um pouco e responder: não. Os diálogos referentes à história são iguais aos do Arquiteto em The Matrix Reloaded – desnecessariamente complexos, longos e desinteressantes.

O que era dito

O que eu enxergava

Em seguida temos uma tríade curiosa de episódios. O sexto capítulo (Remote Island Syndrome I) mostra a SOS Brigade em busca de mistérios numa ilha deserta, uma narrativa que considero mais agradável, mas só ao fim do episódio algo de relevante acontece. E o fanservice continua firme e forte. Mikuru sendo mostrada semi-nua e com peitos balançando na praia. Ai ai ai....

A expressão da Haruhi nessa cena me define.

O sétimo episódio (Mysterique Sign), que basicamente gira em torno de uma luta com um grilo gigante, finalmente mostra uma personagem que está na abertura, mas ela aparece por um minuto e depois NUNCA MAIS. O oitavo capítulo (Remote Island Syndrome II) é a conclusão do sexto e mostra que o mistério da ilha deserta na verdade era uma armação para entreter a Haruhi. Ela certamente ficou entretida, mas eu fiquei com a impressão de que estava assistindo a uns fillers de Naruto, porque esses três episódios basicamente levam nada a lugar nenhum.

Pelo menos a luta com esse bicho é engraçada.

O nono episódio (Someday in the Rain) é uma surpresa, no pior sentido da palavra, infelizmente. Quando descobri que esse é o último da ordem cronológica, fiquei igual o rapaz dessa imagem. O episódio basicamente consiste no Kyon buscando um aquecedor numa loja, a Haruhi tirando fotos com a Mikuru e a Yuki lendo um livro sozinha na sala em um plano estático que dura CINCO MINUTOS. As piadinhas de exploração e gemidinhos da Mikuru persistem, mais chatas do que nunca.

Até esse ponto eu estava incomodado com a falta de desenvolvimento dos personagens. Sendo o último episódio da ordem cronológica, esse me mostrou que os personagens continuam iguais até o final. O que me incomodava neles simplesmente não é resolvido. Me bateu um desânimo grande ao perceber isso, mas ainda havia um caminho grande a percorrer, então segui em frente, relutante.

Essa é a última cena desse episódio. Um jeito amigável de se mostrar o dedo do meio para quem está assistindo a série.

No décimo episódio (Melancholy IV), é mostrado que uma das alunas, a Ryoko Asakura, é uma interface humanoide da mesma entidade que a Yuki e ambas as duas batalham após a outra tentar matar o Kyon para ver como a Haruhi reagiria, em uma luta cheia de sangue e corpos perfurados, assim como a galera adora. Isso acontece DO NADA. O fator WTF pode ter funcionado durante o episódio do ""filme"", mas aqui não surtiu efeito algum em mim.


O episódio 11 (Day of Sagittarius) consiste em um combate de vídeo-game entre a SOS Brigade contra o clube de computação. Uma sacada interessante foi a de alternar a trilha sonora entre 8-bit e orquestral nas cenas de simulação deles dentro do jogo e deles na vida real, respectivamente. Mas né, é mais um episódio avulso, com a diferença de que esse ao menos é divertido.


No episódio 12 (Live Alive) – o melhor, por sinal –, a Haruhi se dispõe a ajudar o clube de música leve (!) da escola ao ver que as integrantes estavam passando por problemas. Ela assume a guitarra e o vocal e faz uma performance marcante. Animação excepcional a desse momento, tamanha a expressividade que possibilitou sentir na pele a intensidade do canto dela. Esse evento mostra um lado não explorado da personalidade dela, mais afetivo, altruísta, que depois some nos episódios seguintes da ordem cronológica. Não faz sentido.


Enfim, os dois episódios finais da 1ª temporada. O posicionamento deles como encerramento justifica a existência dessa ordem não-cronológica. No 13º (Melancholy V) nos é apresentado com um pouco mais de profundidade o conceito de closed space, junto de um leve aprofundamento ao personagem do Koizumi. Kyon o assiste colocando seus poderes em prática num cenário criado inconscientemente pelo mau humor da Haruhi, onde o ser psíquico mostra os perigos que a garota é capaz de criar e a importância de combatê-los.


Quanto ao último episódio, bom, foi um final digno. O Kyon vai parar em um closed space junto da Haruhi devido à insatisfação imensurável dela. Deu para sentir a tensão do possível fim do mundo e achei o desfecho criativo e bem executado. Apesar desse episódio não ser o último da ordem cronológica, ele tem o feeling de final e sinceramente não consigo imaginar a minha reação se tivesse visto como último episódio o Someday in the Rain. Apesar do meu proveito já ter sido pífio na ordem não-cronológica, imagino que seria ainda pior se tivesse assistido na ordem cronológica.

E mesmo com um final interessante, os problemas não se resolveram. Os personagens são pouco desenvolvidos. A Mikuru é a maior decepção – ela só existe para ser usada como atrativo sexual e parece não ter relevância alguma fora isso. Os personagens secundários então nem se fala. Mal aparecem e são ridiculamente mal explorados, desde os colegas do Kyon até a irmãzinha dele que sequer sabemos o nome. E a história parece que foi feita pra você não entender: o roteiro não me deixou compelido em momento algum a tentar me envolver mais.

"Não entendo uma palavra do que você está dizendo". E nem tentei entender.

Essas foram minhas impressões da 1ª temporada, apenas metade da minha experiência predominantemente negativa com Haruhi. "Espero que eu consiga desfrutar mais da segunda temporada", pensei, mas foi um pensamento em vão, pois eu sabia que a continuação contava com um infame arco responsável por denegrir a imagem da franquia...

2ª Temporada (2009) – ENDLESS EIGHT

"Vamos fazer um arco cujo os 8 episódios são os mesmos eventos sendo repetidos com ligeiras diferenças?" Pois é, essa débil ideia foi aprovada. Num ponto de vista objetivo, isso é insano. Imagina como as pessoas que assistiam isso semanalmente se sentiram, assistindo praticamente o mesmo episódio durante 8 semanas. É como se o intuito disso fosse fazê-las sentir na pele o que os personagens estavam passando, querendo que aquele loop terminasse logo. Um plano audacioso que não agradou a muitos, em partes.

- Quantas vezes já repetimos esse loop?
- Essa é a vez nº 15,498.

Eu devo dizer que o Endless Eight foi um guilty pleasure pra mim. Foi um tanto curioso notar as pequenas diferenças na execução de um episódio pro outro, sem contar que todos eles são 100% reanimados, sem nenhum plano em comum sequer. Ver as mesmas ações oito vezes com mudanças na direção, iluminação, animações e enquadramentos foi interessante, preciso admitir.

O mesmo momento reanimado diferentemente seis vezes, com uma composição de cena completamente distinta em cada um dos episódios.

Parte da diversão ficou por conta dos diálogos. Era cômico eu já saber tudo que os personagens falariam em determinada cena, mas era mais interessante ainda quando haviam leves mudanças nas falas, como uma expressão diferente ou a ausência de uma sentença. Era sempre engraçado ver como o Kyon reagia unicamente à ligação noturna da Mikuru em cada episódio.

Esse arco poderia indubitavelmente ter sido condensado em um número menor de episódios e ainda assim cumpriria seu papel de colocar o telespectador no lugar dos personagens, assim a 2ª temporada não teria a reputação negativa que tem hoje, mas, em minha humilde opinião, sua execução foi criativa o suficiente para me manter entretido. Inclusive, eu diria que o Endless Eight não é o pior que a temporada tem a oferecer...

2ª Temporada – THE SIGH OF HARUHI SUZUMIYA

O roteirista conseguiu a façanha de criar um arco que consegue ser mais chato que o Endless Eight, tudo graças à personalidade da nossa amiga Haruhi Suzumiya que ficou mais insuportável do que nunca.

A série sempre colocou ênfase em como ela é manipulativa e egocêntrica, mas nesse arco a abusividade dela extrapola o nível do aceitável até para quem está assistindo. Todos se tornam meros brinquedos para a execução de seu filme tosco. Só o que ela faz é gritar, mandar, se gabar e ser uma pessoa desprezível ao ponto de você ficar puto em estar assistindo essa garota respirando.


No clímax do arco ela chega a drogar a Mikuru para se soltar mais durante as gravações, aí vê que não tá dando certo e começa a agredi-la para que recupere sua consciência. PORRA!!!! Se o intuito do criador era fazer com que as pessoas tivessem ódio mortal da Haruhi, devo dizer que ele conseguiu com um êxito estrondoso, pois me deu vontade de nunca mais sequer cogitar assistir qualquer coisa que tenha o nome dela.

"Quero fazer a vida da Mikuru virar um inferno"  a série de Haruhi em uma casca de noz.

Depois desse evento, a série decide jogar questões no ar a respeito das verdadeiras intenções do Koizumi e da Mikuru. Isso instigou minha curiosidade, mas eles fizeram isso no ÚLTIMO EPISÓDIO! Aí já é um pouco tarde, né? E é algo que se encaixaria facilmente na primeira temporada, mas acho que exagerar no fanservice e repetir o mesmo episódio 8 vezes vêm em primeiro lugar...

Diálogos ambíguos ao fim da série? Claro! Desenvolvimento de personagem? Pra que?

Esse arco foi tão desgostoso que, agora que sei como esse ""filme"" foi produzido, acho difícil que eu consiga assistir ao primeiro episódio da série novamente, sendo que eu havia gostado dele. Me recuso a dar audiência a um produto de uma menina sem escrúpulos que abusou da sua equipe como se fossem escravos.

Mas se tem algo que vale a pena ser notado desse arco é que nele tem o momento mais engraçado da série DE LONGE, quando o Kyon pede ao gato falante para miar em vez de falar quando chegasse em casa, aí a irmã dele fica animada quando vê o felino e ele responde com um "miau" em voz de humano. O que torna esse momento mais cômico é a execução seca de “bate e volta" dele, não dura mais de 10 segundos.

2ª Temporada – BAMBOO LEAF RHAPSODY

Dos 14 episódios dessa temporada, apenas um deles é avulso, ou seja, não faz parte de nenhum dos dois arcos supracitados. Ele mostra como aconteceu um evento do passado da Haruhi que havia sido mencionado anteriormente, com o envolvimento do Kyon, que voltou no tempo com a Mikuru para ajudar a Haruhi de 3 anos atrás a desenhar escrituras ditas alienígenas no chão, sem que ela o reconhecesse.


Fora o fato de que finalmente vemos a Mikuru fazendo algo de relevante – apesar de nem ela saber explicar o porquê dessa viagem no tempo –, esse episódio parece ter sido jogado no meio dos outros só pra completar 14 capítulos. Tudo bem que ele mostra o motivo pelo qual a Haruhi decidiu entrar no mesmo colégio do Kyon, mas ainda assim me pareceu que só estavam tentando complicar a história já complexa para que tudo fizesse menos sentido ainda. ...ou será que não?

CONCLUSÃO

The Melancholy of Haruhi Suzumiya é como se fosse uma grande piada que quase não conseguiu arrancar risadas de mim. Não entendo como uma obra com uma história mal executada e repleta de personagens rasos e irritantes conseguiu ser tão impactante no mundo das animações japonesas. Pra mim, Haruhi não passa de uma bagunça incoerente.

Essa seria a minha conclusão caso a obra terminasse na 2ª temporada...

...

...mas esse não é o caso. Muito, mas MUITO pelo contrário. Um ano após o término da série, foi lançado um filme. Eu não quero me adiantar tanto, mas esse filme é algo especial e imprescindível para se experienciar Haruhi devidamente. Sem assisti-lo, qualquer conclusão é prematura.

Para ler a análise do filme junto da minha conclusão sobre a obra de Haruhi como um todo, clique aqui.


-por Vinicius "vini64" Pires

domingo, 28 de janeiro de 2018

The Story of Perrine


Se você acompanha o blog há um tempo, deve ter ouvido falar sobre os animes do World Masterpiece Theater, dos quais eu fiz algumas análises aqui. Desde dezembro de 2016 que não escrevo sobre nenhum deles, visto que alguns trabalhos mais recentes chamaram a minha atenção, trocando o meu foco estrito em animações antigas.

Mas isso não quer dizer que parei de vê-los. No começo de 2017, assisti ao anime de 1978 do WMT, The Story of Perrine (Perrine Monogatari), adaptação do romance francês En Famille de Hector Malot. Lançada um ano antes de Anne of Green Gables e dois anos depois de Marco, dois trabalhos merecedores do título de obras-primas, como será que esse se compara a estes dois gigantes?

HISTÓRIA

Geralmente a primeira seção de meus textos é focada mais nos personagens do que na história, mas essa série não introduz um elenco de personagens recorrentes até chegar em sua segunda metade. Isso se deve ao fato de que a primeira metade é uma jornada de grande escala, similar a Marco, em que acompanhamos a ida de uma garotinha e sua mãe da Sérvia até a França abordo de uma humilde carroça guiada somente pelas duas.

A garota se chama Perrine Paindavoine, uma mocinha diligente e educada de 12 anos que faz de tudo para ajudar sua mãe debilitada. Mesmo doente, a mulher não se deixa parecer abatida durante um segundo sequer e decide partir nessa jornada rumo à França, onde mora o pai de seu falecido marido e avô de Perrine, a fim de proporcionar uma vida melhor à sua filha.


Como é de se esperar de uma obra do World Masterpiece Theater, essa jornada está longe de ser livre de adversidades. O trajeto entre os países é longo e árduo, especialmente de se atravessar numa carroça velha movida por um burro senil. Durante os meses de viagem, Perrine e sua mãe enfrentam intempéries, resfriados, falta de comida, imprevistos com a locomoção, precisam lidar com pessoas de mal-caráter, entre outras dificuldades. Isso tudo culmina na piora fulminante da situação de saúde da senhora Paindavoine. O pior acontece – a mãe de Perrine falece e a menina deve prosseguir viagem sozinha, o que a leva a enfrentar mais problemas ainda.


Depois de muitos percalços, Perrine chega à cidade de Maraucourt, na França, onde descobre que seu avô, Vulfran, é um dono de fábrica milionário que movimenta toda a indústria da cidade com produção de algodão. Além disso, ela fica sabendo que o senhor é cego, austero e temido por todos. Com medo de ser rejeitada logo de cara, ela assume o nome falso de Aurelie e começa a trabalhar na fábrica a fim de se aproximar dele.


Outro grande empecilho é o fato do sr. Vulfran ansiar pelo retorno de seu filho, Edmond, o qual já faleceu e ele ainda não sabe disso. Como se isso não fosse o suficiente, ele também despreza a mãe de Perrine por ser indiana e por ter "roubado" seu filho dele, o que dificulta mais ainda a vida da pobre garota.

Apesar disso, a Perrine vê bondade em seu avô e, durante essa segunda metade da série, acompanhamos sua missão em ser aceita como sua neta. Ela conhece novas pessoas, boas e más, e começa a viver uma vida completamente diferente da que estava habituada.


ARTE

Em relação a arte de The Story of Perrine, tem um aspecto lindo e outro feio. Vocês querem ouvir a notícia boa ou a ruim primeiro? A boa? São os cenários. Que os desenhos destes são fantásticos não é nenhuma novidade para as séries do World Masterpiece Theater, mas acredito que os dessa obra sejam uns dos melhores de toda essa coleção de animes. São encantadores, fascinantes, talvez até mais do que as próprias paisagens europeias que representam. Veja por si mesmo, dessa vez com imagens panorâmicas!










Em contrapartida, temos a "notícia ruim" – o character design. O desenho dos rostos é esquisitíssimo, me dá a impressão de terem sido desenhados por crianças, especialmente alguns personagens cujos olhos são apenas bolinhas pretas, algo que não combina com o estilo desses animes. A expressividade deles é bem limitada por conta disso, diminuindo o impacto emocional de algumas cenas. Chega a ser irônico o fato de que a produção do ano seguinte, Anne of Green Gables, tem um dos designs de personagem mais lindos de toda a franquia, enquanto o de The Story of Perrine é um dos mais feios.

E falando em formas de arte, um detalhe que me fascina nessa animação é como ela mostra os processos de fotografia no século XIX. Não mencionei isso na primeira seção pois não achei espaço, mas durante a viagem, a Perrine e sua mãe trabalham como fotógrafas, então vemos em detalhes como eram feitos os retratos nos primórdios da fotografia, desde a preparação até a revelação com toda aquela química envolvida (feita dentro de uma carroça!).



Geralmente eu reservo uma seção para a parte sonora das séries que analiso, mas no caso de Perrine não tenho o que pontuar. Nada é memorável, nem mesmo a abertura, que é algo que sempre adoro na maioria dos animes da franquia. Isso não quer dizer que a parte sonora seja ruim, apenas que não foi marcante para mim.

MEU ENVOLVIMENTO COM A SÉRIE

Se você leu outras análises minhas sobre séries do World Masterpiece Theater, sabe que eu costumo me envolver emocionalmente com elas, desenvolvendo uma empatia enorme pelos personagens. Infelizmente isso não aconteceu com The Story of Perrine, mas dessa vez não foi por ser uma produção problemática como é o caso de Pollyanna e Romeo's Blue Skies. O que ocorreu foi que inventei de assistir outro anime junto desse e este acabou ofuscando seu brilho.

Caso esteja curioso, o anime que roubou a cena desse foi nada mais nada menos que Sakura Card Captors, obra que se tornou uma de minhas animações favoritas de todos os tempos e você pode conferir minha análise aqui.

No entanto, apesar de não ter sido criado esse vínculo emocional que agrega um valor enorme às obras, The Story of Perrine é uma série com quase nenhum problema de narrativa. Diferente das duas produções do WMT supracitadas, a trama é dramática e melancólica sem abusar de artifícios que a superdramatizem. Temos cenas de morte, sofrimento e adversidades que são conduzidas de maneira natural como se fosse a vida real. O mesmo vale aos momentos de superação que são um marco da franquia.


Eu gosto de como o roteiro trabalha os antagonistas da série, se é que posso usar esse termo para descrevê-los. O que mais prezo nos trabalhos do WMT é o realismo, e vilões são um produto da fantasia. Na vida real, existem pessoas com más intenções e isso que é retratado nessa animação com os personagens Talouel e Theodore. Eles são dois homens oportunistas cuja única ambição na vida é tomar o lugar do Vulfran na fábrica quando ele vier a falecer, então paparicam-no sem parar.

Eles agem com oposição à Perrine devido à sua proximidade repentina com o dono da fábrica, o que vêem como uma ameaça. Mas apesar de ansiarem pela morte de Vulfran, basicamente é só isso que sabem fazer, pois são apenas dois babacas. Eles não tem capacidade de fazer nada para alcançar seu objetivo além de tentar extrair informações da Perrine por ser apenas uma criança ou ficar ouvindo conversas escondidos. Isso os torna dois personagens acreditáveis, pois existem muitas pessoas iguais a eles por aí.


A primeira metade da série é a minha favorita. Ver a Perrine e sua mãe passando por diversos lugares diferentes e enfrentando as mais variadas situações é tão envolvente que, após uns episódios, me senti como se estivesse acompanhando essa jornada há diversos meses, deu a impressão de que o tempo para mim estava correndo igual no anime.

Mas claro, o maior destaque da obra fica para a relação da Perrine com seu avô Vulfran durante a segunda metade. O fato dele não saber que ela é sua neta aumenta o fator da tensão de inúmeros momentos, como quando ele menciona os falecidos parentes da garota. É incrível acompanhar a mudança gradativa do senhor, desde sua insensibilidade para com os outros até seu apreço por sua neta. A maneira com que o roteiro conduz isso ao longo de mais de 20 episódios torna os momentos finais da série, como a descoberta da morte do Edmond e, especialmente, que Perrine é sua neta, deveras impactantes.


A evolução da Perrine é outro ponto alto da série. Os lugares que ela dorme ao decorrer de sua jornada são uma bela representação disso. Começando em uma carroça, passando para uma cabana de feno, depois para um quarto luxuoso, até chegar em uma mansão enorme, atingindo o ápice.

Para encerrar, um dos momentos que mais me marcou. Com poucos artifícios, como uma ambientação noturna, a movimentação dos cervos e puro diálogo, a cena conseguiu transmitir o drama da separação de uma mãe de seu filho, mesmo que com animais. A direção de arte dessa cena também é fantástica.



CONCLUSÃO

Apesar de minha experiência com The Story of Perrine ter sido ofuscada por outro anime, não é por acaso que este é considerado um dos melhores do World Masterpiece Theater pelo público japonês. A jornada de Perrine é realista, envolvente e emocionante, com um drama na medida certa que não a torna exagerada. E fica a dica: evite assistir muitos animes ao mesmo tempo para impedir que um deles saia prejudicado :P


-por Vinicius "vini64" Pires

Leia também outras análises sobre animações do World Masterpiece Theater: