domingo, 22 de outubro de 2017

Mario Pinball Land (2011)


Enquanto fuçava minha pasta de textos no computador, acabei me deparando com um arquivo peculiar, datado de setembro de 2011, quando esse blog ainda estava em seus primórdios. O que mais poderia ser esse arquivo? É claro que um review! De um jogo de Game Boy Advance chamado Mario Pinball Land, lançado em 2004. Eu costumava jogá-lo direto em 2008, quando tinha meus 12 anos e era uma criança desocupada que amava Mario e se divertia até com os jogos mais toscos, tipo esse.

Pois bem, em um ato de saudosismo, usarei este review que escrevi há 6 anos atrás como o terceiro texto do meu writetober. O que mais me impressiona é que ele está completinho, não faço ideia do porquê de não tê-lo postado na época. Eu não alterarei absolutamente nada nele, portanto vocês poderão contemplar minha escrita como ela era em 2011. Então, sem mais delongas, um artigo sobre MARIO BALLS direto do túnel do tempo!
___________________________________


Sobre:

Mario Pinball Land, conhecido como Super Mario Ball fora das Américas, é um jogo de pinball lançado para Game Boy Advance com elementos de jogos passados da série Mario.

História:

A história do jogo é bem tosca. Tudo começa em um festival em que a atração principal é uma máquina que transforma os Toads em bolas. Essa maquina era usada pra botá-los dentro de um canhão e lançar contra um alvo, coisa que eles adoravam fazer. Após ver o show deles, Peach decidiu tentar uma vez, mas dois Goombas aparecem e miram o canhão para o castelo do Bowser, aprisionando-a lá (típico...). Mario não gostou, e decidiu se transformar em bola para salvar a princesa.



O jogo:

O jogo se baseia em coletar estrelas, alá Super Mario 64. Você precisa de um tal número de estrelas para abrir certa porta e entrar no lugar onde fica o chefe. Sempre quando se derrota um chefe, uma chave aparece. Essas chaves são necessárias, pois elas levarão Mario até a fase final. Ao todo são 4 chaves e 35 estrelas, mas para zerar o jogo, são apenas necessárias 15 estrelas.



Mario Pinball Land é praticamente uma "slot machine" em que você não sabe o que vai acontecer. Na maioria das vezes, os comandos não são executados do jeito que você quer, fazendo com que erre o ataque e que a bola caia pra fora da arena. Podemos dizer que o jogo exige 10% de habilidade e 90% de sorte, ou seja, acreditamos que você se estressará bastante ao decorrer dele.

A trilha sonora:

A maioria das músicas desse jogo são chatas e repetitivas, poucas se salvam. Praticamente todos os sound effects foram retirados do jogo Super Mario Sunshine, de GameCube, até mesmo quando você pausa o jogo. Os efeitos são repetidos diversas vezes, fazendo com que você se irrite facilmente, então, o Goomba Reviews recomenda que você o jogue com o volume no mínimo, ou mudo.



A revanche:

O castelo do Bowser é a ultima área do jogo. Lá, você encontra vários segredos e o mais notável de todos é a revanche contra os quatro chefes do jogo. Todos eles têm algo de diferente agora, a Petey deformada está abocanhando mais rápido, o Puffer-Cheep tem mais comparsas, o King Tut está super ágil e o Big Boo fica invisível facilmente. Quando cada um é derrotado, eles te dão um milhão de pontos, sendo o maior bônus do jogo. Também existe a misteriosa "porta 35" no castelo do Bowser, que todos acreditam que seja uma revanche com o próprio Bowser, que é encontrado neste mesmo castelo.



Gráficos:

Em geral, os gráficos são a melhor coisa desse jogo. São gráficos 3D (um dos poucos 3D do GBA) perfeitos para á época do GBA. Mas apesar dos perfeitos gráficos, o design das fases e dos personagens é bem tosco. Por exemplo, a Petey Piranha, é completamente deformada! Poucos personagens têm o design bom, como por exemplo, o King Tut e o Big Boo.



Notas:

Gráficos 
 9

Jogabilidade 
 4

Áudio 
 4

Controles 
 6



Nota Final: 5



________________________________________

De volta a 2017! E devo dizer que me surpreendi com a quantidade mínima de erros encontrados na minha escrita de quando tinha 15 anos. Minha opinião sobre esse jogo não mudou nada desde então, apesar de eu ainda gostar dele um tantinho, quase como um guilty pleasure.

Algumas coisas me chamaram a atenção nesse texto, como a existência dessa seção desnecessária A revanche e quando menciono "a misteriosa porta 35”. Fiquei curioso para ver o que tinha atrás dela e descobri que é um ovo de ouro que te confere 4 milhões de pontos... Uau.

Mas enfim, esse foi o review nostálgico do único jogo de pinball do encanador mais famoso do mundo. Semana que vem trarei mais um texto de um jogo dele, dessa vez escrito esse ano. Até mais!


                    


-por Vinicius "vini64" Pires

Se você é fã de animações como eu, dê uma lida em meus artigos:

domingo, 15 de outubro de 2017

Yama no Susume


Enquanto me preparo para o texto de Made in Abyss, pensei em escrever, para me aquecer, um curtinho sobre um anime também curtíssimo chamado Yama no Susume. A primeira temporada tem 12 episódios de apenas 3 minutos, e a segunda, consideravelmente maior, tem 24 episódios de 12 minutos, totalizando aproximadamente 5 horas de duração.

PERSONAGENS E HISTÓRIA

A principal da história é a Aoi Yukimura, uma tímida garota com algumas dificuldades em socializar. Quando criança, era fascinada por montanhas e chegou até a ver o amanhecer no topo de uma, mas desde que sofreu um acidente em que caiu de um brinquedo alto e quebrou um osso, ela tem medo de altura e sai pouco de casa, preferindo se divertir sozinha.


As coisas mudam repentinamente para a menina quando uma amiga de infância, Hinata Kuraue, entra em sua vida novamente. Ela é uma garota energética e brincalhona que adora tirar sarro da Aoi, mas acima de tudo, quer reviver o amor que sua amiga tinha por montanhas e começa a arrastá-la para fazer trilhas junto dela. Lentamente, com um pouco de relutância no início, Aoi vai percebendo como é divertido e gratificante praticar montanhismo, apesar das dificuldades.


Enquanto comprava equipamentos em uma loja, Aoi encontra Kaede Saitou, uma moça bela e alta também fã de montanhismo. Indagando qual saco de dormir comprar, ela pede ajuda para Aoi, dando um empurrãozinho para melhorar as pífias capacidades de socialização da garota. Após o encontro, as duas se tornam amigas e, junto de Hinata, começam a trilhar mais montanhas.


Durante uma de suas trilhas, as amigas encontram a Kokona Aoba, uma doce menina que adora a natureza e os animais. Diferente das demais que são meio tomboy, vestindo-se como garotos na maioria das vezes e com cabelos curtos, Kokona é mais mocinha, com cabelos longos e sempre roupada de belos vestidos. Ela me lembra a Tomoyo de Sakura Card Captors, tanto visualmente quanto em seu jeito fofo e formal de falar.

A amizade dessas quatro é uma relação linda, divertida e confortante de se assistir.

Todas as situações giram em torno delas, mas alguns outros personagens aparecem de vez em quando, como o pai da Hinata, especialista em montanhas, a mãe da Aoi, sempre preocupada com a nova atividade da filha, a mãe da Kokona, fofa e atenciosa com sua filha, a melhor amiga da Kaede, sempre tentando corrigir os maus hábitos dela, entre (poucos) outros. Acho que os personagens coadjuvantes que mais me marcaram foi um casal gringo que está escalando o Monte Fuji na segunda temporada. É engraçado ouvi-los falando em inglês super empolgados com a trilha que estão fazendo.

Kokona e Hinata com os gringos.

ARTE

Devo dizer que o traço me agrada bastante, afinal, adoro personagens fofas e a fofura delas é fortemente realçada por seus designs. As cenas de comida (que são muitas!) chegam a dar água na boca e olha que eu nem gosto de comida japonesa. Acho que os artistas dessa série analisaram cuidadosamente os filmes do Studio Ghibli para aprender como desenhar comidas de maneira apetitosa. Posso dizer que eles fizeram a lição de casa direitinho!


Mas, indubitavelmente, o grande mérito artístico desse anime está em seus cenários. Santa Chariot dos céus, que trabalho exuberante! As meninas visitam lugares que realmente existem no Japão, majoritariamente montanhas, e essas pinturas não poderiam fazer jus maior às paisagens japonesas. É um trabalho meticuloso que transpira vida, você consegue sentir a atmosfera dos locais, especialmente nas cenas que mostram o lindo amanhecer.

Como imagens valem mais do que mil palavras, aqui estão alguns cenários para vocês se deliciarem.






Essa parece até uma foto de verdade. Impressionante.



Não sei exatamente qual a reputação dessa série no Japão, mas acho que eles deveriam se orgulhar muito, pois ela funciona praticamente como um guia turístico do país! Além de retratar com fidelidade inúmeros pontos turísticos como cidades, parques e montanhas, o anime também mostra todos os preparativos que devem ser feitos para visitar estes locais, especialmente no que se refere às trilhas nas montanhas. Eu falo como um leigo no assunto, mas esse comentário de uma pessoa que escalou o Monte Fuji e se identificou com a obra mostra como ela é fiel à realidade.

O fato é que Yama no Susume acendeu um fogo dentro de mim, uma vontade enorme de visitar todas as montanhas retratadas e muitas outras do Japão. Já sei como me preparar, que equipamento comprar e, mais importante, tenho uma ideia da sensação que me espera no cume dos montes ao amanhecer, mas só saberei de verdade quando experienciar. Agora praticar montanhismo é uma das minhas prioridades para quando estiver no país, junto de visitar a New Tama Town – cidade onde se passa a obra-prima mais importante de minha vida, Whisper of the Heart – e o Museu Ghibli.

O nome em inglês do anime é Encouragement of Climb
e é justamente isso que ele faz – te encoraja a escalar.

Eu adoraria que só tivesse comentários positivos a fazer sobre a arte dessa série, mas infelizmente nem tudo na vida é um mar de flores. Nesse caso, é muito pelo contrário...

UM PROBLEMA CRÍTICO


Após terminar a primeira temporada, vi que tinha um episódio extra e fui assisti-lo. Tudo estava indo bem, até que a maldição de praticamente todos os animes modernos apareceu – o fanservice. Cara... São crianças... E esse estúdio teve a coragem de colocar uma cena de uma das meninas tomando banho em um plano que a mostra de baixo pra cima??? Eu fiquei revoltadíssimo e torci para que isso não voltasse a se repetir na segunda temporada. Porra, é uma obra sobre montanhismo, amizade e garotas fofas. Até NISSO eles conseguem enfiar apelação sexual? VSF!

Infelizmente, minhas preces não foram atendidas e isso persistiu na segunda temporada. Como a Kaede é mais velha, é lógico que a escolheriam para ser a personagem sobressexualizada, colocando-a em roupas que dão destaque às suas curvas. E claro que não poderia faltar a clichêzérrima cena de banho em águas termais. Mas o ápice da desgraça é o episódio 7, em que a Aoi deve comprar um “biquini sexy” para um encontro na piscina com as garotas. Pqp, os planos desse episódio me enojam. Esse foi feito com o único intuito de sexualizar as meninas e . Ele não agrega em NADA na história. Não faz diferença alguma se você pula do 6 para o 8. É deplorável.

Sim, eu me recuso a ilustrar qualquer um desses momentos mencionados.

Graças a todas as entidades sagradas que existem no universo, acho que o estúdio percebeu a merda que eles estavam fazendo e decidiram parar com o fanservice depois desse lixo de episódio. Sério, vocês não tem noção de como isso me incomodava. Quase parei de assistir por causa disso. Por sorte eu continuei, porque, depois que desistem de apelar com sexualidade, é só alegria e amorzinho.

ÁUDIO

A trilha sonora não é nada de outro mundo, mas é bem agradável de se escutar. As composições são variadas – algumas têm o xilofone como instrumento principal para emular aquele som de infância, outras são um jazz leve e suave e outras me lembram as músicas dos jogos Animal Crossing da Nintendo, uma franquia que inclusive é um tanto similar com essa animação por transmitir uma paz de espírito a quem está jogando...claro que eu não perderia a chance de elogiar algo da minha empresa de games favorita, né? :v

As aberturas e encerramentos nunca conseguiram me prender direito (finalmente!), exceto por um dos encerramentos que é praticamente a música tema da série, visto que ela é usada nas duas temporadas. As outras peças são bonitinhas e tals, mas essa me parece ser a que melhor transmite toda a positividade da obra, especialmente por ser cantada pelas dubladoras da Aoi e da Hinata, algo que agrega um valor sentimental ainda maior à canção.

                        

TEMAS

Além das paisagens deslumbrantes, o que mais me fascinou em Yama no Susume foi que, mesmo sendo uma obra despretensiosa e leve, ela aborda temas essenciais para a nossa vida de uma maneira que conseguimos absorver perfeitamente o que está sendo transmitido. A primeira temporada é a que mais surpreende, por conseguir tratar de assuntos como solidão, timidez, insegurança e importância das amizades em apenas 36 minutos! A segunda temporada expande ainda mais a abordagem desses tópicos e acrescenta questões de trabalho e estudos, tudo ministrado com diálogos inspiradores e poéticos.

"Um emprego pode ser difícil, mas você passa por todo tipo
de experiências e isso realmente expande seus horizontes!"

Eu me identifico bastante com a Aoi, no sentido de que sou uma pessoa tímida com poucas amizades e consigo me divertir sozinho, mas eu sei que a sensação dessa diversão individual não chega nem aos pés da felicidade que é se divertir com os amigos. Esse é um dos temas centrais da obra e algo que a Aoi vai percebendo gradativamente e que transforma sua vida completamente.

Antes das amizades: "Me divertirei sozinha!", com uma expressão de felicidade vaga no rosto.
Depois das amizades: "É muito confortante", com uma expressão de contentamento e realização.

A evolução da Aoi ao longo da série é fantástica. Se você compara como ela era no primeiro episódio da temporada 1 e como ela está no último episódio da temporada 2, é incrível. As experiências que teve explorando o Japão, conhecendo novas pessoas e lugares a tornaram mais comunicativa. Sua paixão por montanhas até a impulsionou a procurar um trabalho de meio-período para conseguir arcar com as despesas. Mas tudo isso não veio facilmente, ela teve que superar muitos de seus medos ao longo do processo.

Como superação e frustração andam lado a lado, a obra não poderia deixar de mostrar os dois lados da mesma moeda, afinal, superar medos não é uma das coisas mais fáceis do mundo. Apesar das altas expectativas e força de vontade, a vida não é um conto de fadas, então Aoi acaba não conseguindo ir ao cume do Monte Fuji por causas que talvez pudessem ter sido evitadas, o que a deixou deprimida e sem forças. É algo difícil de ser contornado? Com certeza, mas com a ajuda das amizades que você mais considera, até o intangível se torna palpável.



CONCLUSÃO

Tirando o fanservice detestável que felizmente dura por poucos episódios, eu adorei cada momento de Yama no Susume. Essa é uma animação que derrete seu coração de tanta fofura e te deixa feliz para o resto do dia, além de trazer reflexões importantes para a sua vida. Mas o melhor sentimento que ela me proporcionou foi essa vontade pulsante de trilhar montanhas pelo Japão. É certo que quando eu for para o país vou deixar meu sedentarismo de lado e perder uns quilinhos explorando as mesmas paisagens que essas garotas desbravaram.


-por Vinicius "vini64" Pires


Leia também meus outros artigos sobre animações:


domingo, 8 de outubro de 2017

Chuunibyou demo Koi ga Shitai!


Inspirado em meus amigos desenhistas que usam o mês de outubro para desafiar a si próprios a postar um desenho diariamente, o famoso inktober, pensei em fazer algo similar, mas semanalmente e com textos. Decidi apelidar essa atividade de writetober........pqp, que nome ruim. Mas enfim! Serão quatro artigos postados ao longo do mês, o primeiro dos quais é sobre um anime que mostra como eu fui me abrindo cada vez mais a esse tipo de entretenimento ao longo dos anos, o que pode ser uma coisa horrível se parar pra pensar, mas calma que eu ainda sei me policiar.

Esses tempos eu decidi assistir a uma animação do famoso estúdio Kyoto Animation, chamada Chuunibyou demo Koi ga Shitai!, de 2012. O estúdio é conhecido por seus diversos animes com personagens fofas e temáticas mundanas (o gênero slice of life) com leves twists de fantasia e mistério. Esse é o primeiro trabalho que assisti deles. Será que foi uma boa escolha?

PERSONAGENS E SUAS HISTÓRIAS

Antes de tudo, acho que preciso explicar que diabos significa o título do anime. A expressão “chuunibyou” pode ser traduzida como “síndrome da oitava série" e se refere aos adolescentes que acreditam ter poderes ocultos e que agem como se fossem um personagem de jogo ou desenho. Se isso já não bastasse, eles acreditam nisso como se fosse sua realidade.

Um caso crítico dessa síndrome pode ser encontrado na Rikka Takanashi, a portadora do Jaoshingan (Olho Tirano), um olho onipotente capaz de distorcer a realidade e desferir os mais devastadores poderes……mas, na verdade, é apenas seu olho esquerdo com uma lente de contato amarela e um tapa-olho.



Em sua busca pelo Horizonte Imaterial, um portal que a levaria a outra dimensão, ela acaba conhecendo Yuuta Togashi, um garoto da sua mesma classe do 1º ano do ensino médio, que antigamente era conhecido como......Dark Flame Master. Só de ouvir esse nome o rapaz já se contorce todo de vergonha, pois era o personagem que vivia quando sofria de chuunibyou, mas para Rikka esse nome faz seus olhos ficarem marejados de emoção. Enquanto Yuuta deseja obliterar isso das suas memórias, a garota quer reviver o “mestre negro das chamas”, então os dois começam uma relação conturbada que aos poucos se desenvolve em um romance desprovido de qualquer normalidade.


Yuuta não é o único assombrado por suas memórias de chuunibyou – esse também é o caso da Shinka Nibutani, a garota mais bonita de sua classe. Assim como o seu colega, tudo o que ela quer é ser uma garota comum no colegial, criar uma boa imagem sua e se tornar popular. Porém, há poucos anos atrás, ela era conhecida como Mori Summer (Verão Florestal), uma maga de coração puro capaz de se comunicar com fadas que viveu por mais de quatro séculos.


Ninguém sequer imaginava que uma garota como ela pudesse ter sofrido da síndrome da oitava-série......até entrar em cena uma estudante DE FATO da oitava-série, Sanae Dekomori. Ela se considera uma serva da Rikka, a quem sempre se refere como Mestra, e tem como inspiração a Mori Summer. Ao ouvi-la replicando todos os discursos que a maga postava em seu blog, Nibutani até rola no chão de tanta vergonha. Isso leva a Dekomori a apelidá-la de falsa Mori Summer, com quem dá início a uma relação na qual sempre estão querendo arrancar o cabelo uma da outra.

Sempre abro um sorrisão no rosto com essas duas.

A fim de encontrar novos membros para buscar o Horizonte Imaterial, Rikka decide criar um clube no colégio, a Sociedade Oriental de Magia, mas ninguém se interessa. No entanto, uma garota também estava com dificuldades em encontrar pessoas para participar de sua sociedade cuja finalidade seria....cochilar. Essa é a Kumin Tsuyuri, estudante do segundo ano cujo maior passatempo é dormir. Ao unir forças com a Rikka e fundar a Sociedade Oriental de Magia e Cochilo (que depois se torna a Sociedade Oriental de Magia e Cochilo de Verão com a participação da Mori Summer), ela conhece todas essas figuras que apresentei e, para o descontentamento do Yuuta e da Nibutani, fica fascinada com o universo criado em suas mentes graças à chuunibyou.


Na segunda temporada é introduzida a Satone Shichimiya, uma garota mágica que atende pelo nome de Sophia Ring SP Saturn VII.....é, já dá pra perceber que ela também sofre de chuunibyou, mas essa é um caso especial, pois foi quem despertou a síndrome no Yuuta durante o ensino fundamental. Os dois tinham uma certa intimidade na época, então quando ela volta mantendo os hábitos antigos, surge um novo impasse na relação do garoto com a Rikka.


A maior inimiga do universo de Rikka é a sua própria irmã, Touka Takanashi, a quem ela se refere como A Sacerdotisa. O motivo de ser considerada uma oponente é pelo fato de odiar a maneira como Rikka age em virtude da síndrome, então sempre tenta cortar as asinhas dela quando começa com os papos de Jaoshingan e Horizonte Imaterial, até porque esse segundo item tem um significado um tanto triste... Porém, é irônico como ela compactua de certa forma com sua irmã ao usar uma concha de cozinha para lutar contra ela.


Quando entrou na escola, a primeira pessoa que recepcionou o Yuuta foi o Makoto Isshiki, um rapaz cujo único objetivo de vida aparente é ser popular entre as garotas. Ele é tão fissurado na causa que chegou a fazer um ranking das mais bonitas da classe. O problema é que o rapaz só sabe observar e é completamente inseguro de si mesmo, não consegue dar sequer um oi para uma menina. Ao conhecer a Kumin, sua ingenuidade e simpatia conquistam seu coração e ele começa a tentar investir na dorminhoca, surtindo resultados cômicos.

Isshiki dando uma de JoJo.

Acho que a única pessoa realmente sã de todos esses que mencionei é a irmã do Yuuta, Kuzuha Togashi. Ela é uma garotinha responsável que estuda, cozinha e faz as tarefas de casa, ou seja, vive uma vida normal, mesmo com tantos loucos em sua volta. O que eu mais gosto na personagem é o jeito como ela ignora completamente a maneira errática que aqueles com chuunibyou agem e conversa com eles como se fossem “pessoas normais”. Fiquei feliz com o tanto que ela aparece na segunda temporada, já que na primeira recebe pouquíssimo destaque.


Esses dias eu estava assistindo a um anime com elementos parecidos (romance, ensino médio, comédia, adolescentes etc), mas não estava curtindo tanto. Foi aí que percebi a grande sacada de Chuunibyou, o diferencial em relação aos diversos animes de comédia com romance colegial – a maneira como a síndrome torna os personagens únicos. Convenhamos, a maioria dos adolescentes dessa geração são chatos e previsíveis, só querem saber de namorar e ter uma vida social comum. Uma animação com personagens assim não me atrai (eu sou fã de realismo em animações, mas não é pra tanto também, né).

Agora se você adiciona à equação essa síndrome à vida mundana de adolescentes, as situações ficam muito mais interessantes. Um simples romance se torna singular, devido à inabilidade da garota de lidar devidamente com a realidade. Uma relação de amor e ódio entre duas meninas em que uma acusa a outra de ser uma maga falsa só pode existir graças à síndrome. O sonho de uma moça de criar um "clube do cochilo" só pode ser realizado porque seus maiores amigos sofrem ou sofreram de chuunibyou... O maior mérito dessa série certamente é a fantástica interação entre os personagens.


Não há dúvidas de que um slice of life é mais impactante quando ele remete fielmente à vida real, como é o caso de diversos dos animes do World Masterpiece Theater que eu escrevi sobre aqui no blog, mas isso não invalida a existência destes que tomam algumas liberdades comédicas como é o caso de Chuunibyou, o qual mesmo assim não foge muito de uma realidade aceitável da vida no ensino médio. O foco principal é no lazer e no romance que os jovens procuram durante essa fase de suas vidas cuja maior preocupação deveria ser os estudos.

Eu li muitas críticas negativas sobre a segunda temporada, nas quais a maioria reclama da ausência de história. Parece que o pessoal não percebe que o anime em questão é do gênero slice of life, então não há necessidade de criar novamente um drama que gire o enredo como foi na primeira temporada. O foco aqui é o desenvolvimento do romance Yuuta & Rikka e as situações que vivem diariamente, sozinhos e juntos de suas amizades. A relação da Dekomori com a Nibutani também é explorada e expandida consideravelmente, com um episódio lindo que mostra a importância de uma para a outra. Poxa, essa temporada tem até uma competição de cochilo da Sociedade Oriental de Magia e Cochilo de Verão contra um clube de outra escola! Não tem como não amar isso!

Graças a essa temporada pudemos rir por mais 13 episódios com esse grupo
e as mais variadas situações.

Muitos ainda reclamam da lentidão com que o relacionamento do Yuuta com a Rikka progride, querendo que eles se beijem logo, mas todos que desejam isso falham em compreender estes personagens, pois não são um casal comum daqueles que você encontra todo dia na rua. O chuunibyou da menina é uma forte barreira entre os dois, que a impede de se expressar adequadamente, mas mesmo assim o Yuuta não tenta forçar ou apressar as coisas, diferente do que muitos “caras normais” fariam, pois ele a ama e compreende as dificuldades dela.

"Mesmo que seja lentamente, de pouquinho em pouquinho,
algo grande está surgindo entre nós".

ESTILO

Chuunibyou faz parte de uma denominação de animes que se popularizou muito a partir dos anos 2000, chamada moe. Um dos significados desse termo é o de criar afeição a um personagem de anime ou jogo num sentido romântico, que não é o meu caso, mas também pode ser usado para descrever um anime com enfoque em personagens fofas fazendo coisas fofas, algo que essa série tem aos montes, especialmente no que se refere à Rikka, Dekomori e Kumin. Eu não reclamo, pois personagens femininas geralmente são minhas favoritas e adoro coisas fofas, então é o “melhor dos dois mundos”.


O trabalho de animação não deixa a desejar – os personagens são genuinamente expressivos, seja em seus movimentos quanto em suas expressões faciais. Eu fiquei impressionado em como o estúdio dá atenção até para os mínimos detalhes, como por exemplo em uma cena em que a Dekomori lacrimeja levemente ao ponto de quase não ser possível ver a lágrimas, aí no plano seguinte, em que a personagem não é nem o foco da atenção, ela enxuga cada um de seus olhos delicadamente. Adoro esse tipo de preciosismo, isso só agrega na sua imersão com a obra.

A animação durante as seções fantasiosas de lutas são um show a parte, coreografadas de um jeito que deixa muito anime shounen no chão. Mas o que mais me cativa nesses segmentos é a maneira como eles acabam. Tá rolando explosões, luzes e destruição pra tudo quanto é lado, aí quando o golpe final vai ser desferido, um corte seco mostra duas garotas brincando no chão. As vezes a edição até alterna entre realidade e fantasia rapidamente, o que sempre produz um resultado engraçado de se ver.


Um elemento muito presente nos animes da atualidade é o famigerado fanservice, ou seja, quando exploram as personagens femininas de maneira fortemente sexualizada. Esse é um dos principais motivos por eu ter desviado por tanto tempo de animes modernos, mas, felizmente, Chuunibyou é bem sutil quanto a isso, se comparado com outras produções similares. O estúdio deixou pra abusar disso nos encerramentos e nas artes promocionais, porque, querendo ou não, isso atrai público, mesmo que seja pelos motivos errados.

O máximo que a série mostra são decotes, pernas em evidência e as cenas de praia com biquínis que se tornaram obrigatórias de uns tempos pra cá, mas nunca chega a ter nada apelativo como planos que mostrem calcinhas e as garotas em situações embaraçosas como se vê em muito anime por aí. Só tem um único momento, na segunda temporada, em que eles forçaram a barra nesse sentido em uma cena na praia (tinha que ser, né) com a Dekomori que me deixou puto ao ponto de eu cogitar parar de assistir. Ainda mais com ela que é a minha personagem favorita!

"Não se atreva a me desenhar desse jeito de novo, DEATH!"

ÁUDIO

A trilha sonora da série me agradou ao ponto de eu procurá-la após terminar de assisti-la e devo dizer que não é tudo que assisto que tem esse privilégio, hein. 60% das músicas são alegres e alto astral, variando entre peças agitadas (momentos mais comédicos e descontráidos) e calmas (trechos de romance e intimidade); 30% são épicas, usadas nas seções de ação que se passam na imaginação chuunibiyou-ística; e os outros 10% são músicas tristes para os momentos mais dramáticos.

                           


Pra variar, também adorei as temas de abertura e encerramento. As aberturas são um pop eletrônico que me remetem aos remixes de músicas de jogo que eram muito comuns na década passada. A da segunda temporada até incorpora uma orquestra em alguns trechos para dar um ar de grandiosidade que, apesar de não combinar muito com o conteúdo da série, me agrada bastante. Já o gênero dos encerramentos é rock pesado, mas com um twist interessante – as músicas são cantadas pelas dubladoras das garotas!

                               

E falando nisso, esse é um ponto que preciso elogiar – a dublagem (japonesa, só pra não confundirem), em especial das meninas principais. O trabalho dos dubladores também é ótimo, seja o do Yuuta quando ele incorpora o Dark Flame Master ou o do Isshiki e seu sotaque do interior, mas o das garotas é o que mais se destaca. Os grunhidos da Rikka quando se machuca, a voz fofíssima da Kumin, as reações de vergonha da Nibutani ao lembrar de seu passado e o ênfase que a Dekomori coloca quando fala “desu” para parecer que está dizendo “DEATH!”... As vozes únicas de cada uma delas transmite suas personalidades perfeitamente.

Para finalizar a seção, preciso compartilhar o encerramento dos especiais da segunda temporada, com direito a uma música carnavalesca contagiante e overdose de fofura na animação da Rikka chibi dançando.

                              

IDENTIDADE INTERIOR

Voltando ao título, o nome em inglês é Love, Chuunibyou and Other Delusions e este descreve com excelência o conteúdo da série, visto que os temas principais são romance, a síndrome que os personagens sofrem e as desilusões que provêm desses dois elementos. Por se envergonhar do seu passado com chuunibyou, Yuuta faz de tudo para se esquecer disso e se tornar um garoto comum, o que prova ser uma tarefa difícil quando Rikka entra em sua vida. Ainda assim, depois que começa um relacionamento com ela, tenta mostrá-la o “jeito certo” de se viver, sem loucuras e brincadeiras, apenas maturidade e normalidade.

- Bonito, não é mesmo?
- São apenas carros. O reflexo de seus faróis.

Com a imaginação, é possível transformar o mundano em mágico, mas isso se perde quando
só se tem olhos para a objetividade da vida comum.

Porém, nessa busca incessante pelo ordinário, você acaba abrido mão da individualidade, daquilo que te torna único. Ao ver como Rikka estava se habituando forçadamente a agir normalmente, infeliz, Yuuta se dá conta disso. Existem tantas pessoas iguais no mundo, não há motivos para querer se tornar “só mais um”. Claro que na vida real você não pode agir como se fosse um “mensageiro das trevas” ou algo do tipo, mas a mensagem da série é – se você se sente diferente dos outros, abrace essa diferença. Não tente forçar ser quem você não é.

CONCLUSÃO

Frequentemente eu me pego reassistindo algumas cenas no YouTube, que ainda me divertem bastante. Isso é o que importa. Chuunibyou pode não ser uma animação inspiradora que mudou minha vida, mas as histórias cômicas desses personagens certamente me proporcionaram muita felicidade e não há nada que faça um bem maior a uma pessoa do que ser feliz.



-por Vinicius "vini64" Pires



Leia também meus outros artigos de animações:

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Little Witch Academia


Eu sou uma pessoa muito retrô. A vasta maioria dos animes que vejo são de 10 a 50 anos atrás. Mas existem algumas produções mais recentes pelas quais me interessei, como Jojo’s Bizarre Adventure, Boku no Hero Academia e a série deste artigo que vos escrevo.

Little Witch Academia
é uma animação japonesa de 2017 produzida pelo Studio Trigger, um estúdio novo, fundado nesta década, mas já famoso graças a essa obra e a um anime chamado Kill la Kill, de 2013. Este não me chamou muito a atenção devido ao seu conteúdo vulgarizado – apesar de eu tê-lo assistido inteiro recentemente –, mas Little Witch me ganhou só pelas imagens de suas personagens carismáticas e pela premissa de uma garota atrapalhada treinando para se tornar uma grande bruxa.

PERSONAGENS

A protagonista é a Atsuko Kagari, mais conhecida como Akko, uma garota extrovertida, determinada e destrambelhada. Diferente de todas as outras alunas da escola de bruxas Luna Nova, Akko é apenas uma garota normal, então suas investidas no uso de magia são sempre uma caixinha de surpresas, geralmente pendendo para o lado negativo. A energia dessa menina é contagiante – duvido você não ficar com um baita sorriso no rosto com sua expressividade exagerada e suas risadas carregadas da mais pura alegria.


Mas talvez a característica mais marcante da Akko seja a inspiração inabalável que sente por uma bruxa chamada Shiny Chariot. Seus olhos brilham mais que a luz do sol quando pensa nessa figura, cuja é sua maior motivação para realizar seu sonho – se tornar uma bruxa que trará alegria a todos com sua magia brilhante e excitante, assim como seu ídolo. Apesar de Chariot ter uma fama negativa no mundo da feitiçaria, a menina não se importa nem um tiquinho com isso e, sempre que tem a oportunidade, grita do fundo de seu coração como virará uma bruxa maravilhosa igual ela.

Akko com uma carta de sua grande inspiração.

A Akko tem duas melhores amigas na escola. Uma delas é a Lotte Yanson, uma doce e amável mocinha que dá o melhor de si para ajudar sua amiga atrapalhada, mesmo com todas as peripécias que apronta. Ela é muito tímida e introvertida, mas tem uma linda voz de canto capaz de se comunicar com espíritos que residem em objetos antigos.

Fofa. Adoro ela muito muito muito.

A outra melhor amiga é a Sucy Manbavaran, uma garota apática e sinistra, fascinada por cogumelos venenosos com os quais faz macabras poções e sempre usa a Akko de cobaia para testá-las. As únicas coisas que botam um sorriso em seu rosto são assuntos de morte e ver o caos instaurado nos lugares. Apesar dessa descrição que afastaria qualquer um dela, a Sucy no fundo é uma boa pessoa, e só uma garota irradiante como a Akko para mostrar que existe um brilho em seu coração.


Mesmo com suas pífias habilidades mágicas, a Akko tem uma rival em Luna Nova….pelo menos é assim que ela enxerga a Diana Cavendish, aluna mais prestigiada do colégio, capaz de executar as mais avançadas magias e dotada de quase todo o conhecimento do mundo das bruxas. Há quem ache que ela é apenas uma patricinha esnobe e invejosa, mas não é bem assim. Abordarei esse assunto mais pra frente no artigo.


Ao seu lado estão sempre a Hannah e a Barbara, duas frescas que ficam paparicando a Diana por cada passo que dá e zombando a Akko por sua inabilidade em usar magia. Mas diferente de sua hábil amiga, que a despreza com “propriedade” de acordo com seus ideais, essas são duas inúteis que não sabem fazer nada além de lamber as botas da Srta. Cavendish, enquanto a Akko tem uma ambição de vida e dá o melhor de si, mesmo com todas as adversidades que enfrenta.

Nem sei por que gastei um parágrafo falando dessas duas nojentas.

Já apresentei dois trios de amizade, mas ainda falta um! O trio composto por Amanda O’Neill, uma delinquente metida a garoto, mas exímia dançarina; a Constanze Amalie von Braunschbank-Albrechtsberger, uma baixinha engenheira eletrônica que constrói robôs e mecanismos avançados, mas é muda e odeia gente barulhenta; e a Jasminka Antonenko, uma gordinha sorridente que não para de comer um segundo sequer e tem um estoque infinito de comida.


No colégio, apenas uma professora simpatiza com a atrapalhada protagonista - a Ursula Callistis. Diferente de todo o corpo docente, ela é jovem e bonita, e é a única entusiasmada em ajudar a Akko a realizar seu sonho. Mas apesar de parecer uma simples professora nova, muito mistério ronda a sua pessoa...


O resto do corpo docente é composto por diversas senhoras e anciãs das mais variadas personalidades. Tem a diretora condescendente, a rígida coordenadora, a treinadora de voo machona, a especialista em poções louca de pedra e até uma professora que é um peixe!


Porém, na segunda metade da série, uma figura enigmática se junta ao elenco de professoras - a bruxa Croix. Como se o seu visual já não entregasse, ela é especializada em magia moderna e faz uso de tudo que há de tecnológico e digital no mundo. Ela chega à Luna Nova com o intuito de mudar a imagem - em sua concepção - obsoleta da magia e acertar umas pendências do passado com a profª Ursula.

Ah, ela também é viciada em Cup Noodles. Quem não curte um miojinho, não é mesmo?

E sim, a série tem personagens masculinos! Mas são poucos e o único de grande relevância é o Andrew da família Hanbridge, uma das mais influentes do país na política. Assim como seu pai, tem uma visão negativa da magia, mesmo sendo amigo de infância da Diana, que é uma das bruxas mais formidáveis da atualidade. Mas essa sua impressão começa a mudar ao conhecer uma bruxinha peculiar chamada Akko Kagari.


Mas antes de mergulhar de cabeça na série, gostaria de falar um pouco sobre as duas produções que a precederam e que possibilitaram sua existência.

O CAMINHO ATÉ A SÉRIE


Little Witch Academia nasceu em 2013 com um curta de 23 minutos, parte do Young Animator’s Training Project, uma iniciativa do governo japonês focada em capacitar novos animadores a trabalhar na indústria de animes. Yoh Yoshinari, que já trabalhou como animador chave em grandes séries como Neon Genesis Evangelion (meu review) e Tengen Toppa Gurren Lagann, ficou encarregado de liderar o projeto. 

Ele atuou como diretor, animador e supervisor da pequena equipe de jovens, guiando-os para que aprendessem o máximo possível sobre técnicas de animação, com muita prática envolvida. Toda essa atenciosidade e dedicação surtiu resultado – o curta foi altamente aclamado pelo público em seu lançamento, com diversos elogios ao trabalho de animação vivo e fluído, e também ao carisma de suas personagens, cujo design foi feito pelo próprio Yoshinari. O trabalho competente do diretor pode ser conferido neste making of de mais de 1 hora de duração (apenas com legendas em inglês).

                                  

Sinceramente, eu não sou um grande fã do primeiro curta. Seu ritmo acelerado com pouco tempo para respiros não me agrada muito. É possível entender que existe essa garota comum, em meio a diversas bruxas, que é vista com maus olhos na escola devido à sua inspiração frívola e que ela quer ser como seu ídolo, mas a breve duração da produção faz com que tudo aconteça depressa demais. Isso impossibilita que esse universo que nos foi apresentado seja explorado da maneira devida, deixando um gostinho de “quero mais” na boca, especialmente em relação às suas personagens cheias de potencial.


Por sorte, esse gostinho veio a ser saciado com a sequência lançada em 2015, The Enchanted Parade. Agora com 55 minutos de duração, Yoshinari retornou com a mesma equipe de jovens para executar o projeto, dessa vez possibilitado graças à ajuda de crowdfunding via Kickstarter. O sucesso da produção de 2013 foi tão grande que a campanha do site atingiu sua meta de 150 mil dólares em apenas 5 horas e arrecadou um total de $625,518! Com esse orçamento, foi possível produzir uma obra mais completa e de qualidade ainda maior do que a anterior. O esforço da equipe foi documentado novamente em um making of que mostra os apertos e sofrimentos dessa árdua profissão de animador.

                                  

Porém, quando o resultado dessas adversidades é um produto como The Enchanted Parade, a sensação de gratificação deve ser enorme. A obra retifica tudo o que me incomodou na anterior – a duração maior permite com que o ritmo seja mais pacífico e que as situações sejam abordadas de um jeito que nos possibilita absorvê-las devidamente.

Não há nada que te aproxime mais de um personagem do que um momento de reflexão durante o pôr-do-sol.

Mas a grande vitória dessa animação está no desenvolvimento das personagens e em seus relacionamentos. As características e trejeitos de suas personalidades, brevemente mostrados no curta de 2013, são amplamente expandidos e melhor explorados. Essa obra definiu a maneira de agir e pensar de cada um deles e elevou seus carismas a um nível extremo, sem contar que foi aqui que o trio Amanda, Constanze e Jasminka foi introduzido. Eu já apresentei todas as personagens na primeira seção desse artigo e mostrei como as adoro, então pelo foco deste filme ser a relação entre estas, ele me ganhou por completo.

Boa, Yoshinari!

O fato de essas duas produções terem sido lançadas antes da série cria uma experiência inédita se você os assiste antes, como eu, pois a série mostra como a Akko entrou na escola de bruxas, então logo no começo do primeiro episódio quando ela tá super empolgada por estar indo à Luna Nova, você também fica todo alegre por já conhecer essa personagem e um pouco de sua história. 
Ver como ela, a Lotte e a Sucy se conhecem é mais envolvente quando já assistiu às duas obras anteriores por já saber como elas são amigas inseparáveis no futuro. O fato de já conhecer a Amanda, a Constanze e a Jasminka faz com que sua reação à primeira aparição delas na série não seja “Olha, três personagens novas. Legal.”, mas sim “Aeeee, o trio de garotas que ajudou a Akko a organizar a parada Happy Time! YAYYY!!”. Isso agrega um valor muito positivo à experiência.


VISUAL

Sinceramente, não tenho muito o que falar sobre a arte da série. Tudo é brilhante e vívido - a distribuição de cores abusa da alta saturação; os cenários com forte inspiração européia se destacam por sua estética artesanal; a animação é fluidíssima, especialmente na expressividade das personagens e nas sequências mágicas. O visual de Little Witch Academia é como um feitiço do Shiny Rod que enche seus olhos de brilho.


Mas se tem um aspecto da arte que merece destaque é o character design. Em grande parte dos animes, a maioria dos personagens se parecem entre si, especialmente em seus rostos. Já essa animação foge do convencional e apresenta um elenco de figuras visualmente distintos. Volte à seção PERSONAGENS e tente procurar faces similares. Você vai perceber como a maioria delas é única em seu design.

O mais fascinante é que até os olhos são em maior parte distintos uns dos outros.

Claro, suas vestimentas são parecidas, porque a série se passa em um colégio, né, o uniforme é o mesmo para todos. Mas ainda assim há algumas individualidades - o vestido da Akko é curto e vai até um pouco abaixo da cintura, já o da Lotte é maior e cobre até o joelho, enquanto o da Sucy a cobre por completo ao ponto de arrastar o tecido no chão. O mais interessante disso é que essas distinções de roupas refletem suas personalidades, com a Akko sendo mais livre e relaxada, a Lotte mais reservada, e a Sucy completamente reclusa - seu vestido até passa a impressão de uma bruxa malvada tradicional, o que combina perfeitamente com ela.


ÁUDIO

A trilha sonora da série é boa, porém não muito memorável. As músicas combinam com tudo o que é mostrado em tela, mas são poucas as que ficam na sua cabeça e que você sente vontade de procurar depois na internet para escutar novamente. As composições que mais se destacam são a tema da Shiny Chariot, que pode ser considerada a tema definitiva da franquia, e a peça que toca algumas vezes quando a Akko está fazendo algo mirabolante. Talvez em uma segunda assistida a trilha sonora tenha mais chances de se fixar em minha mente, mas por ora esse é o meu veredito.

                             

Agora, se tem algum aspecto marcante da música dessa série, são as aberturas e encerramentos. Little Witch Academia é uma rara exceção à regra de que as aberturas são melhores do que os encerramentos, pois eu gosto igualmente de todas elas. Mais raro ainda é o fato de que cada uma dessas tem um significado para mim.

O nome da primeira abertura, Shiny Ray, já diz tudo – ela representa os raios brilhantes do Shiny Rod, o báculo da maior inspiração da Akko, a Shiny Chariot. O brilho de todos os elementos que envolvem a garota simbolizam a importância de seu ídolo em sua vida, desde sua infância até sua fase atual. É essa luz que a guia em sua jornada, como a letra da música mostra: “hakanai mama no ima o dakishimete / kawaranai mama jikan to / hikari mitsumete aruiteku (Abraçando cada momento como se fosse único / Fixarei meus olhos nessa luz / E continuarei seguindo adiante)”.

                             

O primeiro encerramento se chama Hoshi wo Tadoreba, cuja tradução é “se você seguir as estrelas”. A série tem dois temas centrais: a inspiração da Akko, abordado em Shiny Ray, e a importância das amizades em sua vida, tratado nessa canção. Mais simples impossível, nos é mostrado uma série de ilustrações da Akko e de suas amigas vivendo suas vidas. Munido de uma linda música que representa com maestria a amizade do trio principal, não é necessário nada além dessa simplicidade para ter um encerramento perfeito, assim como esse trecho da letra: “sou naite waratte tabete netemo / kuyokuyo shichaisou na toki demo / soba ni itekurete arigatou / mata ashita ne! (Através das lágrimas, dos sorrisos, das horas em que comemos e dormimos / E todos os momentos em que tivemos preocupações / Muito obrigada por ter estado ao meu lado / Até amanhã!)”.

                              

Se a primeira abertura trata da importância da inspiração e o primeiro encerramento da importância das amizades, Mind Conductor, a segunda abertura, trata da união desses dois elementos na hora de agir, da importância deles para enfrentar os obstáculos da vida. Enquanto Shiny Ray tem uma sonoridade leve e mostra a Akko encantada com o brilho de sua inspiração, Mind Conductor é um rock mais pesado e conta com um olhar de determinação no rosto da garota, que mostra não ter medo do que vem pela frente, pensamento que se intensifica quando a melodia ascende durante o refrão e é incrementada com uma orquestra. Com a ajuda de suas amizades e sua inspiração ardendo em seu coração, “donna toki mo shinjite iru yo / kono sekai o, jibun no yume o (Eu nunca vou deixar de acreditar neste mundo e em meus sonhos)”.

                              

Apresentada com uma animação minimalista fantástica, a canção do segundo encerramento é Toumei na Tsubasa, do japonês “asas transparentes”. Essa peça representa um momento de reflexão em sua vida, até mesmo de insegurança (“Minha habilidades não são páreas para as minhas fantasias”), mas nunca de desistência (“Mesmo assim, meu coração não vê a hora de encontrá-las”), pois ela tem suas asas transparentes – as motivações que permitem com que voe em direção ao seu sonho, sejam elas sua inspiração na Chariot, seu aprendizado diário ou suas grandes amizades. Se transformando graças a esses elementos e “toumei na tsubasa habatakasetara / akogareteta ashita e kitto (Desdobrando minhas asas transparentes ao céu / Sinto que posso me aproximar do amanhã que eu desejo)”.

                                

Que eu me emociono quando escuto uma música de alguma obra que eu admiro não é novidade pra ninguém se você leu minhas resenhas anteriores, mas devo dizer que o que sinto com as aberturas e encerramentos dessa série ultrapassa qualquer outra. É difícil de descrever algo tão idiossincrático como a sensação que me domina ao ouvi-las. Eu consigo sentir o brilho que cerca a Akko na primeira abertura ao escutar Shiny Ray e isso me enche de alegria. Quando chega no refrão de Mind Conductor, as lágrimas correm naturalmente antes que eu me dê conta. É algo tão forte, um calafrio tão intenso que chega a estremecer o coração.

E as análises que fiz sobre as músicas não valem só para o contexto da série - eu também sigo em minha vida tudo o que essas canções representam.

Para fechar a seção, gostaria de falar que o trabalho de dublagem é ótimo, adoro a voz de todas as personagens, mas tem uma dubladora que se destaca entre todas e faz uma das melhores atuações que já tive o prazer de ver em um anime – Megumi Han, a voz da Akko. Eu não consigo nem imaginar outra pessoa dando vida à personalidade maluca dela, com todos seus gritos histéricos, grunhidos e gargalhadas. A maneira com que ela transmite sua felicidade, a voz que faz quando está confusa, os seus “yayys!”... É evidente como a dubladora ama a personagem e isso se reflete em seu trabalho absurdamente acima da média.

MAGIA ULTRAPASSADA

Apesar de eu adorar Little Witch Academia, alguns problemas me incomodaram. Um deles são os famosos clichês, especialmente ao que se refere a resoluções de situações em alguns episódios, quando optam pelo previsível e não arriscam algo novo.

Contudo, o problema mais agravante certamente é o rumo que a trama toma a partir de sua segunda metade. Antes disso, o foco era majoritariamente no sonho da Akko e em suas relações, a mostrando curtindo a vida com suas amizades enquanto cresce gradativamente como uma bruxa, errando e aprendendo. O formato da série era praticamente episódico, sem uma grande trama que girasse a história e se desenvolvesse ao longo dos episódios - era puramente o aprendizado diário da Akko.

Com uma personagem principal que transborda carisma como ela, esse formato é mais que perfeito.

Mesmo com a Akko ainda como o tema central, a introdução da Croix como vilã na segunda metade traz consigo uma trama focada em um antagonismo muito exagerado. Sua ambição em se vingar da Chariot por ter sido a escolhida pelo Shiny Rod em vez dela é um enredo tão batido que você consegue prever até o desfecho. O penúltimo episódio é focado quase que inteiramente nesse conflito, cheio de ação e explosões que só são artifícios deslumbrantes para aqueles que não se contentam com a simplicidade da história de uma garota em busca de sua inspiração. Simplicidade essa que chega a ser mais bombástica do que qualquer ameaça explosiva em escala global.

"Sou do mal".

Infelizmente, esses defeitos subtraem seu desfrute completo da obra.......ou pelo menos é o que deveria acontecer comigo, mas...

O CORAÇÃO QUE ACREDITA

Como falei no primeiro parágrafo da seção anterior, eu adoro essa série. Não... Não é só adoração que sinto por ela... É amor. Eu AMO Little Witch Academia. Seria no mínimo estranho eu escrever tudo aquilo sobre as aberturas e encerramentos se eu apenas adorasse essa animação.

Um dos principais motivos por eu amá-la é pela maneira formidável como ela aborda um tema essencial para nosso desenvolvimento pessoal e profissional – a inspiração. Eu expliquei detalhadamente isso quando apresentei a personagem e falei sobre as aberturas e encerramentos, mas volto a repetir: a maior inspiração da Akko é a Shiny Chariot e é isso o que lhe motiva a perseguir seu maior sonho. Mesmo que tentem diminuí-la por isso, o sentimento ardente em seu coração não permite que seja abalada.


Pode parecer confuso, mas a maneira como a Akko se inspira é inspiradora para mim. Ela me mostrou que você não deve ter vergonha daquilo que te motiva, independente do que seja. Nas situações do dia-a-dia, as vezes eu hesitava em falar da importância de certos animes pra mim, mas aí eu percebia como a influência deles na formação da minha pessoa era grande de mais para deixar de expressar meus sentimentos quanto a eles.

Sempre que tenho a oportunidade eu falo como os filmes do Studio Ghibli me transformaram no que sou hoje e como Sussurros do Coração é minha maior inspiração de vida. Independente se Sakura Card Captors é considerada uma animação para garotas, eu exponho claramente como essa série me faz me sentir maravilhoso. Se as pessoas vão rir de você, isso não importa. O importante é acreditar naquilo que te inspira. Por que? Porque “um coração que acredita é a sua magia”.

Abrace suas inspirações e transforme-as em suas asas transparentes.

Agora eu gostaria de defender a Diana, muitas vezes injustiçada e taxada como patricinha invejosa por aí. Vinda de uma família renomada no mundo das bruxas, ela tem como missão carregar o legado do nome Cavendish após o falecimento de sua mãe e impedir que a magia caia no esquecimento. Ela se sente no dever de ser a bruxa mais hábil da atualidade, o que a faz parecer esnobe as vezes. Ver o jeito desengonçado da Akko usar magia, quase como se fosse brincadeira, chega a ser uma afronta para a garota. Mas com o passar do tempo ela percebe que ambas as duas têm um fervor imparável em seus corações de não deixar a magia morrer.

Até a fonte de inspiração das duas é a mesma, mas por ser de uma família respeitada, Diana não pode expor isso livremente como a Akko, então a mantém guardada em seu coração.

Um caso parecido com o dela é o do Andrew Hanbridge. Filho de um ministro e de uma família importante na política, ele é obrigado a seguir os passos do pai para um dia assumir seu cargo, o que significa que deve agir de uma maneira imposta sobre ele e não pode nem cogitar querer tomar outro rumo para seu futuro. Durante sua vida, apenas conviveu com pessoas em situações similares a sua, então quando conhece a Akko, com toda sua liberdade de ações e pensamentos e que segue com veemência seu grande sonho, um novo horizonte se abre para o garoto. Na nossa vida é assim também – conhecer novas pessoas e vivenciar novas experiências é a única maneira de expandir seus horizontes.


É fácil de se relacionar com os personagens dessa série. São poucas as animações que trabalham com fantasia que conseguem criar um vínculo de empatia entre os personagens e o telespectador, mas Little Witch Academia excede nesse quesito por criar figuras não muito diferentes de nós, com ambições e problemas similares. Além da protagonista, eu também me identifico muito com a Lotte, tanto que não posso vê-la cabisbaixa ou preocupada que já fico triste. Naquele momento em que ela reencontra a Akko depois do sumiço dela, nossa, eu me senti na pele dela, chorando de felicidade.


E isso é algo de suma importância, pois, além de ser uma obra inspiradora, essa animação também te deixa mais feliz do que criança em piscina de bolinhas. A fissura da Lotte pelos livros de Nightfall, as situações caóticas que a Sucy cria, a marrentice da Amanda, a gulodice da Jasminka, o jeito da Constanze de lidar com as pessoas, a interação entre as professoras, e tudo, TUDO que a Akko faz... Talvez a magia mais eficaz dessa série seja a felicidade que ela te proporciona.

O fato é que os defeitos que mencionei na seção anterior deveriam subtrair meu desfrute da obra, mas os pontos positivos são tão fortes que eles invalidam qualquer ponto negativo. Alguns clichês como as pessoas torcendo e dando energia para as bruxas conseguirem força, em vez de ser tosco, se torna algo lindo de se assistir devido à afinidade que você criou com essas personagens. Quando o último episódio terminou, eu fiquei meio confuso se tinha gostado ou não. Foi aí que a cena abaixo me veio à mente:


Quando percebi o significado simbólico desse momento, até fiquei arrepiado. Todos os mecanismos da Croix, que representam o antagonismo exacerbado da personagem e os clichês que provêm disso, são transformados em beleza natural pela magia da Akko. Na magia dessa garota estão embutidos o conteúdo inspirador, os personagens relacionáveis e a mais pura felicidade. Esse feitiço transcende a tela do dispositivo que você está assistindo e te envolve com todos esses elementos, te transforma.

CONCLUSÃO

Quando comecei essa série, eu sabia que seria uma ótima experiência assisti-la, só não imaginei que me apaixonaria tanto como aconteceu. A luz do Shiny Rod se instaurou em meu coração como uma fonte de inspiração e de felicidade. Little Witch Academia se tornou mais um componente das asas transparentes que me permitem voar em direção ao meu futuro.

      

-por Vinicius "vini64" Pires


Leia também meus outros artigos de animações: