domingo, 25 de janeiro de 2015

Heidi, A Garota dos Alpes


Eu não sou uma pessoa que costuma assistir muitas séries, mas quando esta envolve os fundadores do Studio Ghibli Isao Takahata e Hayao Miyazaki, sendo considerada a obra que os perm
itiu terem uma carreira bem sucedida, não tenho como deixar de conferir, não é mesmo?

Durante os anos 70 e até os anos 90, diversos clássicos da literatura mundial foram adaptados em animes no Japão em uma série chamada World Masterpiece Theater. A cada ano era exibida uma série na televisão do país e em 1974 foi a vez de Takahata ingressar a sua neste grande marco da animação japonesa.

HISTÓRIA

Heidi é uma órfã que vive com sua tia Dete em uma pacata vila da Suíça até que esta consegue uma oportunidade de emprego na Alemanha e é obrigada a deixar a garotinha com seu avô que vive isolado nos Alpes Suíços, um senhor que todos da vila de Dorfli referem-se como Alm-Uncle (Tio dos Alpes), o qual é dito ser ranzinza, apático e que sente desprezo pelos habitantes do local. A menina é deixada diante de sua cabana após uma discussão dele com a tia. Apesar da situação, Heidi ainda era muito nova para raciocinar o que estava acontecendo, sua mente era dominada por apenas uma coisa – a imensidão dos Alpes, as montanhas, a natureza dominando todos os cantos do local, os barrancos verdes e toda a magnificência do local. Heidi se sentia em cima de uma nuvem devido à altura do lugar, conseguindo ver até a vila em que morava lá em baixo. Logo ela se encontra com Peter, um pastor de cabras de 12 anos meio destrambelhado e, claro, Heidi fica apaixonada pelos animais e começa uma grande amizade com o garoto. A sensação que envolve a menina é de estar descobrindo um novo mundo, repleto de natureza e liberdade. Apesar de no começo estar relutante de ter uma criança vivendo ao seu lado, com o tempo, o Alm-Uncle passa a ser contagiado pelo ar de felicidade que a garota exala, sua vontade de viver e bondade diante a tudo que a revolve.

                    

Em um certo ponto da série, Heidi deve ir viver em Frankfurt em uma residência extremamente luxuosa para fazer companhia à filha do dono do local. É aí que conhecemos a Clara, uma menina cadeirante que passa seu tempo inteiro sozinha, estudando e tendo que seguir ordens, confinada em quatro paredes sem ter com quem brincar nem com quem se comunicar fora a governanta do local, Fraulein Rottenmeier, e seus empregados. Quando a menina dos Alpes começa a viver lá, nós vemos como Rottenmeier é uma mulher desprezível, menosprezando-a pelo estilo de vida que ela tinha nas montanhas, não estando acostumada com os supostos padrões da alta sociedade. Entretanto, Heidi cumpre sua parte em fazer companhia para Clara, formando uma das amizades mais bonitas e reais que já vi em toda minha vida, a qual estarei falando em detalhes mais à frente.




PRODUÇÃO

Apesar de Heidi ter sido a primeira adaptação de um livro infantil por Takahata e Miyazaki, ela não era para ter sido. No final dos anos 60, após o fracasso comercial de seu filme Horus: Prince of the Sun, Takahata foi mandado de volta para a televisão. Lá, o propuseram a ideia de fazer uma adaptação de alguma das obras infantis da escritora sueca Astrid Lindgren. A ideia empolgou o diretor, então ele se dirigiu a dois associados seus: Hayao Miyazaki e Yoichi Kotabe. Juntos eles começaram a esboçar ideias de estória e artes conceituais para uma adaptação da obra Pippi Longstocking (conhecido como Pippi Meialonga por aqui). Este seria o advento do World Masterpiece Theater. Takahata visava fazer algo além de uma simples adaptação do livro de Lindgren, mas uma animação para inspirar as crianças do Japão, característica marcante de suas futuras adaptações feitas para o Masterpiece Theater. A equipe de produção então viajou para a Suécia para avaliar os cenários do local onde se passaria a série e visitaram a escritora do livro para discutir sobre o projeto. Foi então que a casa caiu – Lindgren vetou a adaptação. Os motivos nunca foram revelados.

Pippi podia ter ido para o saco, mas isso não desencorajou o trio de seguir em frente. Muitos dos elementos e temas da obra descartada foram herdados para a nova ideia de adaptação deles – Heidi, um clássico literário suíço de 1880. Uma narrativa pensada para instruir e inspirar crianças, a importância da infância e um ambiente rural seriam elementos presentes em Pippi que foram passados em diante para a adaptação da obra de Johanna Spyri. A icônica cena na abertura de Heidi onde a garota está no balanço gigante acima da vila também era uma ideia originalmente planejada para o projeto de Pippi.

                    
        Imagem conceitual do projeto Pippi Longstocking mostrando a cena do balanço gigante 

Isao Takahata é o famoso “diretor de animação que não sabe desenhar”. Desde 1963 dirigindo este tipo de entretenimento, Takahata sempre prefere adaptar uma obra já existente ao invés de criar algo do zero, sendo pouquíssimas as vezes em que isso aconteceu (a mais notável sendo Pom Poko, longa de 1993 do Studio Ghibli). Contudo, também são poucas as vezes em que o diretor apenas adapta a obra do jeito que ela originalmente é – ele costuma mudar e acrescentar diversos elementos e acontecimentos para proporcionar uma visão diferente às pessoas, algo que reflita seu pensamento diante ao mundo. Outra característica marcante de seus trabalhos são a temática mundana, raramente incluindo elementos de fantasia, fora, é claro, sonhos e pensamentos dos personagens. Heidi é um dos trabalhos que definiu o estilo de Takahata, contendo tudo o que mencionei acima em grande escala.

Hayao Miyazaki, conhecido mundialmente por seus filmes para o Studio Ghibli como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro, foi o responsável pelo trabalho de layout de cenários da série, e que trabalho, hein? As magnificentes montanhas dos Alpes Suíços, a natureza que envolve todo o local e até mesmo as ruas e prédios quadrados de Frankfurt são desenhados de maneira tão convincente que tudo retratado em Heidi ganha vida. É um trabalho de aquarela sem igual para a época e algo extremamente complexo, afinal não é qualquer um que consegue transmitir uma perspectiva de profundidade tridimensional em um desenho para que personagens interajam e corram livremente pelos cenários sem parecer algo superficial.

                    

Yoichi Kotabe ficou a cargo dos designs de personagem e da direção de animação. Talvez os fãs mais obstinados da Nintendo já tenham ouvido este nome – ele é o cara que redefiniu os designs do Mario, da Princesa Peach e do Bowser. Além de ter seu nome creditado em quarenta jogos da série Mario, Kotabe também fez trabalhos de design para a série Zelda e para o anime da série Pokémon. Mas falando de Heidi, em uma entrevista com Satoru Iwata (presidente da Nintendo), o artista explicou que eles tinham uma limitação de frames na animação devido aos problemas de custos, algo que foi um grande problema para ele considerando seu trabalho como diretor de animação, sem contar que, apesar de a estória original ser curta, Takahata queria mergulhar fundo no desenvolvimento dela e mostrar o dia-a-dia da garotinha na montanha e todos os relacionamentos humanos. “Devido a isso, nós nos esforçamos o máximo possível durante a produção, mas foi bem duro. Ficamos acordados diversas noites sem dormir. Eu achei que fosse morrer (risos)”, relatou Kotabe. Mas posso garantir que o esforço dessa equipe valeu a pena. Ô, se valeu.

                    
                 Miyazaki, Kotabe e Takahata em 1973 durante uma viagem de pesquisa à Suíça 

A série foi transportada ao redor de todo o mundo, tendo versões dubladas em todos os quatro continentes, com alguns lugares omitidos, o mais notável sendo os Estados Unidos. Heidi foi exibida aqui no Brasil na década de 80 na SBT, porém é praticamente impossível achar qualquer conteúdo dublado em português nos dias de hoje.

VALOR SENTIMENTAL

(Aviso: Essa parte contém spoilers, pois preciso mencionar certos pontos da série para me expressar com mais clareza.)

Quando uma série te faz pensar enquanto está deitado na cama em como os personagens estão se sentindo nesse momento diante de alguma situação ocorrida é porque a equipe de produção sabia muito bem o que estava fazendo. Saber lidar com emoções é algo praticamente inexistente na indústria de animes nos dias de hoje. Não só nos animes, abordar sentimentos em trabalhos audiovisuais é algo que vem sendo deixado de lado cada dia mais e mais, se dissipando em virtude de uma geração onde tudo o que importa são bens materiais e o status social, onde algo é feito somente com o intuito de lucrar. Isso é abordado na série no episódio em que a tia de Heidi a leva para Frankfurt da maneira mais baixa possível, dizendo que ela poderia comprar os pães macios para a vó debilitada do Peter e tabaco para seu avô que tanto queria, afinal nada a deixa mais feliz do que proporcionar felicidade àqueles que ela ama, e voltar para a casa no mesmo dia, se aproveitando de sua inocência. A Dete passa a se sentir uma mulher de alta classe, que agora ela faz parte da nobreza porque trabalhou para uma família rica e se deixou levar pelos valores superestimados do local, mas na verdade ela é de uma ignobilidade imensa, chegando a ignorar os sentimentos de uma garotinha simplesmente para fins pessoais. Claro que casos como esse sempre estiveram presentes na nossa sociedade, tanto que essa série é dos anos 70 e já procura retratar esse tipo de desrespeito com a vida, mas vemos isso acontecer com muito mais frequência nos dias de hoje.


                    

O tema principal da série é a importância da infância. A infância até um tempo atrás era tida como um período de inocência e de descobertas, onde as crianças eram como a Heidi, brincando por aí, perguntando coisas para seus responsáveis, aquela curiosidade incessante e o mais importante, se importando com seus amigos. Infelizmente até estes valores estão se esvaindo ultimamente, onde séries e desenhos que fazem ode ao adolescente rebelde inspiram a criança a agir dessa maneira, a era da tecnologia fez delas cômodas, onde não existe mais aquela curiosidade e vontade de descobrir o mundo, já que tudo pode ser pesquisado na internet. A intenção do diretor Isao Takahata com essa série era de inspirar as crianças a serem mais vivazes e de lembrar tanto elas quanto os adultos de que a infância é sagrada. Não adianta querer ficar ensinando valores antes da hora, querer ficar forçando a criança a se preparar para a vida adulta – tudo tem sua hora. Outra coisa que nunca, NUNCA se pode fazer é privar uma criança de sua imaginação, assim como a Fraulein Rottemeier fazia com a Heidi. Takahata queria que os adultos entendessem que as crianças são de uma natureza insondável e que não precisam de valores fúteis como os que a Rottenmeier tentava ensinar, que nem sempre o que você pensa que será bom para ela será de fato. O problema é que isso não surtiria muito efeito hoje em dia, já que as crianças aprendem o que não devem por influência da mídia. Uma criança que deveria trazer felicidade e inspirar seus pais hoje faz o contrário.

Todos nós estamos acostumados com o paradigma ocidental de animação, aquele onde sempre tem um vilão com a única ambição de acabar com o mocinho bem dotado ou a donzela ideal. E se o trabalho se trata de uma família, temos o pai mandão que não procura entender o que o filho sente ou uma criança mimada e desrespeitosa. É uma benção saber que os trabalhos do Takahata e do Miyazaki fogem completamente deste modelo. Contudo, mesmo assistindo algo que está fora dos padrões ocidentais, nós continuamos esperando pelo clichê. Não que queiramos que ele aconteça, mas esperamos. Isso aconteceu comigo diversas vezes quando acontece tal situação que você imagina que vai acontecer o previsível, mas o que se concretiza é o inverso. Por exemplo, tem uma cena onde a Heidi está mexendo o leite no caldeirão para fazer queijo. Ela não pode sair de lá e parar de mexer, pois se não o leite vai queimar e seu avô não está por perto. Porém, sendo uma criança que se distrai com facilidade, ela vê uma cabra passando pela porta e decide ir atrás dela, subindo a montanha. Quando ela volta, se depara com o velho descascando o caldeirão que ficara cheio de leite queimado. Você então imagina que ele vai gritar com ela, deixar de castigo ou até mesmo bater nela, pois estamos acostumados com o paradigma ocidental, onde este seria o desfecho de certo. Mas não é isso o que acontece. Ele reconhece que o erro foi dele por ter deixado sozinha uma criança da idade dela cuidar de uma tarefa a qual estava fazendo pela primeira vez e diz que a deixará tentar outra vez numa próxima oportunidade. Se os modelos ocidentais fossem usados depois dessa cena, ela sairia andando e brincando como se nada tivesse acontecido, pensando “Ah, meu vô é um bocó mesmo! Posso fazer o que eu quiser que ele vai passar a mão na minha cabeça”, mas não, ela reconhece o erro que fez e fica triste pelo resto do dia.


                    

O fato é que animações como essa que mostram a realidade muitas vezes são ignoradas, pois criou-se o conceito de que uma animação precisa escapar da realidade, que precisa mostrar um mundo utópico onde a mente do espectador deve viajar e esquecer onde vivemos por uns minutos. Obras como Heidi não são o tipo de entretenimento que a maioria das pessoas procura hoje em dia. Tudo que elas querem é algo que escape da realidade, não algo que nos mostre ela, que mostre como é o dia-a-dia de alguém os problemas que ela vem a enfrentar. Por isso que os filmes do Studio Ghibli são rejeitados por alguns, pois, apesar de grande parte deles conterem elementos fantasiosos, o que eles mais procuram expor é a realidade em que vivemos.

Algo que queria dizer é que não vejo Heidi como uma série. Não vejo personagens na tela e sim pessoas com sentimentos reais – mais reais do que os das pessoas da sociedade atual. Você consegue sentir o drama que eles passam. A felicidade da Heidi descobrindo novas coisas e se preocupando com seus entes queridos é algo que te envolve de uma maneira linda. A sensação que te domina quando a Heidi volta para os Alpes é algo inexplicável, parecida com o que ela mesma está sentindo. É um sentimento de alegria que transborda dentro de você.  Mas devo dizer que nunca criei um elo tão forte com um personagem em qualquer tipo de obra audiovisual como com a Clara. Ver uma garota cadeirante que sempre passou sua vida inteira sozinha enclausurada em uma casa ter uma companhia para rir, conversar e se divertir e se preocupar com ela ao ponto de cair aos prantos só pelo fato dela ter sumido sem avisar é de encher o coração de ternura. Eu devo admitir que cada lágrima soltada por ela foi compartilhada comigo. Quando ela finalmente vai para os Alpes Suíços e se reencontra com sua amiga, Heidi, Peter e o Alm-Uncle fazem de tudo para agradá-la, para fazer com que a doença na sua perna sare logo. Uma das cenas mais lindas é quando o Peter a leva nas costas para ver o campo de flores no topo das montanhas com os quais ela sempre sonhou. Eu conseguia imaginar como a Clara estava se sentindo naquele momento mágico de sua vida, algo que ela nunca havia experienciado antes, uma enorme felicidade no coraçãozinho frágil dela que consegui sentir dentro de mim. Eu não queria que os momentos dela nos Alpes acabassem. Ela nunca havia experienciado nada igual na vida dela. Tantas companhias, tantas pessoas querendo seu bem-estar, tanta vontade de viver... Começa a subir aquele peso na garganta. Não é apenas algo bonito de se ver, é algo lindo, é algo real, são sentimentos sendo expressados do fundo do coração.


                    

                                       


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se eu já admirava o Takahata e o Miyazaki por causa de seus filmes do Studio Ghibli, agora eu passo a admirá-los mais ainda. Nunca existirá alguém que saiba trabalhar com temas tão profundos e essenciais de uma maneira tão sublime que nem eles. Agora eu entendo porque dizem que essa série é um dos maiores feitos da carreira desses dois diretores. Ela realmente é a obra-prima da carreira de Isao Takahata. Heidi é muito mais do que uma série, é uma obra da vida pura como o aroma de um campo de flores. É a vida retratada da maneira como ela deveria ser. Um mundo ideal seria um mundo onde as pessoas abririam seus corações para os outros como a Heidi faz.

   
  

-por Vinicius "vini64" Pires

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