sábado, 9 de janeiro de 2016

Blackstar

Essa análise foi escrita um dia antes da morte de David Bowie. O álbum agora adquiriu outro significado para mim, pois vejo que foi sua mensagem de despedida para nós, um relato de seus últimos dias e do ícone que se tornou.

Mas não irei modificá-la.

Bowie deixou seu último presente para nós e foi para outro lugar. Seu legado continuará eterno neste mundo.

Obrigado por tudo.

"He trod on sacred ground, he cried loud into the crowd"



1947 - 2016

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Bom, foi em 2011 que escrevi minha última análise sobre um álbum. É, eu tinha 15 anos. Agora, em 2016, com o novo lançamento de um dos artistas de rock mais influentes de todos os tempos, é hora quebrar o hiato de cinco anos.



O camaleão do rock está de volta! Tendo pegado todo mundo de surpresa em 2013 com um novo álbum após estar inativo por 11 anos, David Bowie lançou seu vigésimo-quinto álbum ontem – dia 8 de janeiro de 2016, mesma data que completou 69 anos. E olha, ele não poderia comemorar seu aniversário de maneira melhor! Blackstar é um dos álbuns mais ambiciosos do artista, com canções muito além do pop e rock que permearam sua carreira nos anos 80 e 2000 e que quase se igualam aos seus maiores sucessos da década de 70 em questão de experimentalismo.

Mas devo dizer que o que mais me intrigou nesta obra foi uma certa estrutura que enxerguei nela. A meu ver, todas as músicas se conectam, se comunicam entre si, formam uma história que vai progredindo de canção a canção. Porém, isso acontece de forma inversa, ou seja, a história começa na última faixa e termina na primeira. Talvez seja só loucura da minha cabeça, talvez não seja, pois vendo todo o simbolismo e a ambiguidade presente nos clipes das duas faixas principais do álbum, é bem possível que tenha algo por trás.

Portanto, farei uma análise diferente dessa vez – escreverei sobre cada música do álbum, mas começando pela última e terminando na primeira. Assim consigo explicar melhor a história que percebi na obra.

(as frases em itálico representam elementos das letras das músicas)


I CAN’T GIVE EVERYTHING AWAY


O álbum se encerra com uma peça bem tranquila, sem muitas mudanças de tempo. O começo dela lembra bastante a música A New Carrer in a New Town do álbum Low (1977), com uma gaita fazendo uma melodia bem similar. Apesar de ser calma, a batida eletrônica – similar ao álbum Earthling (1997) – da um gás a ela e é uma combinação que estranhamente funciona muito bem com a melodia serena.

 Ligação com a história
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Antes de começar a falar da relação dessa música com a história, gostaria de expor alguns pontos:
- sabemos que o personagem principal é um homem velho pelos clipes lançados;
- sabemos que é um homem com muito dinheiro devido à maneira que se veste (nos clipes) e pelo que as letras indicam.
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Sendo assim, à história:

O homem velho percebe que está perto de morrer. O coração com um blackout e os sapatos com desenhos de caveira neles são metáforas que indicam isso. Durante essa fase de sua vida, ele via mais mulheres, mas sentia menos. Quando alguma se oferecia a ele, o cara dizia não, apesar de querer. É como se algo o traumatizasse. E sendo um senhor cheio de dinheiro, ele não pode dar tudo em vão.


DOLLAR DAYS


Como o saxofone é um dos meus instrumentos favoritos, essa música não desaponta. Uma peça dramática, Bowie canta de uma maneira que nos toca, aliado de um piano e um sax bem marcantes. Devo dizer que a transição de como essa canção termina e continua na próxima (‘I Can’t Give Everything Away’) é um dos pontos mais altos desse álbum, foi muito bem executado, especialmente pelo contraste da batida eletrônica com o tom dramático em que a música termina.

 Ligação com a história

A música começa com o som do homem mexendo em papéis. Seria o som dele mexendo na carteira pegando a foto de uma mulher em meio às notas de dólares? Ele diz para ela não acreditar nem por um segundo que está esquecendo dela. Tudo que ele quer é paz, ver as plantas que nunca deixam de ficar verdes, quem sabe assim poderia morrer em paz. Além disso, algo lhe perturba, e ele está tentando de tudo para esquecê-los, ou, como ele diz, “enganá-los”. Os “dollar days” acabaram, aqueles de sexo que vai do rabo ao pescoço. Mas quando eles aconteceram?


GIRL LOVES ME


Essa é uma das faixas mais esquisitas do álbum, e isso é dizer muito. Tem uma sonoridade bizarra e uma letra aparentemente sem sentido se for analisada por si só (pra mim, sinceramente, ela só faz sentido dentro da narrativa que eu enxergo dentro do álbum), que faz uso parcial de um vocabulário usado no livro A Laranja Mecânica. Ao meu ver, por ser meio repetitiva, acho que ela poderia ter um pouco menos de duração. Mas não é uma música ruim, é apenas...peculiar.

 Ligação com a história

O homem começa a delirar. O som desconcertante da música representa seu estado mental. Seu vocabulário não faz mais sentido (Choodesny with the red rot / Libbilubbing litso-fitso). Perdeu a noção do tempo (Where the fuck did Monday go?). Aparentemente chegou ao lugar onde as plantas sempre são verdes (I'm sittin' in the chestnut tree), e acredita que ninguém jamais o fez (Who the fuck's gonna mess with me?).

Apesar de ter indicado certa vontade de terminar sua vida em um bom estado de espírito ('Dollar Days'), ele simplesmente começou a mostrar indícios de aversão para com a maneira como estava a reta final de sua vida (I'm cold to this pig and pug show), apesar de que isso não indica que o homem ache que está fazendo algo errado. A garota o ama, ele mostra acreditar veementemente. Mas afinal, quem é ela?


SUE (OR IN A SEASON OF CRIME)


Eu ouvi o álbum pela primeira vez no caminho do trabalho. Quando essa música começou, eu fiquei espantado com tamanha agressividade em questão de sonoridade, especialmente depois do clima de lamentação que ‘Lazarus’ passa. Mas isso se deu principalmente pelo fato dessa música ter sido lançada em 2014 em uma versão completamente diferente, bem mais voltada pro jazz do que para o rock pesado.

De qualquer jeito, devo dizer que gostei bem mais da versão desse álbum do que da anterior. É uma peça que proporciona agitação e inquietação, especialmente pela bateria frenética, a guitarra distorcida de certos pontos e os diversos efeitos de ecoação. É interessante como a música vai ficando mais intensa à medida que os acontecimentos da letra vão se desdobrando. O Bowie falando “Sue... Goodbye...” é algo que entra bem fundo na sua alma. Enfim, acho que deu pra perceber que essa é uma das que eu mais gostei de Blackstar.

 Ligação com a história

A mulher mencionada nas músicas anteriores é o assunto principal aqui. Em um delírio inquieto e aflito, o homem começa a se lembrar de Sue, aparentemente o grande amor de sua vida. Ele trabalhou para dar uma vida agradável a ela (Sue, I got the job / We’ll buy the house / You’ll need to rest). Mas a mulher se envergonha de algo (ou será que só aparenta?), já que queria "Sue, a virgem" escrito em sua lápide quando morresse. O homem, entretanto, sabia que ela não era tão pura como aparentava, já que havia tido um filho com outro homem (Why too dark to speak the words? / For I know that you have a son).

De qualquer jeito, ele não deixou de amá-la. Então o senhor se lembra quando beijou o rosto de Sue e foi trabalhar, durante uma temporada de crimes onde vivia. Ele tenta salvá-la inutilmente, mas já era tarde – Sue havia morrido. O homem beija e toca no rosto de sua amada pela última vez.

Os sons de eco indicam a confusão em que se encontra sua mente. Não demorou muito para que encontrasse o bilhete que Sue escreveu antes de morrer, no qual descobriu que era traído por ela. “Eu nunca imaginei isso”. “Sou um grande tolo”.  Os ecos de sua mente ficam cada vez mais intensos, até que tudo cessa.


LAZARUS


A estrofe “I’ve got drama, can’t be stolen” define bem essa música: Bowie sabe fazer uma canção dramática como ninguém. É engraçado como músicas desoladoras assim são maravilhosas, elas conseguem te transmitir algo. Mesmo que você não esteja triste, você consegue sentir o peso da letra e da melodia.

Novamente, o artista mostra um exemplo primordial de como executar o desenrolar de uma música – ela começa uma melodia bem “pra baixo”, refletindo o que a letra apresenta. Mais pra frente, quando o personagem começa a lembrar de acontecimentos passados, ela fica mais incrementada e o camaleão canta com mais firmeza. Então vem o ápice, quando o personagem quer se livrar de tudo, acabar com sua dor, o que Bowie e sua voz transmite de maneira indefectível, com a ajuda dos instrumentos – em especial o saxofone e a bateria – que ganham destaque de intensidade após que Bowie termina de nos mostrar o apelo do personagem. Após isso, a música volta ao seu estado de origem, como se o personagem fosse gradativamente fechando os olhos após todo seu esforço.

Isso tudo que eu falei é referente à versão completa da canção, a qual você confere clicando aqui. Não curti muito a versão editada do clipe, mas como ele contribui para a história que eu enxerguei no álbum, tive que incluí-lo aqui.

 Ligação com a história

A música começa com um som indistinguível levemente ecoado, algo umbroso que permeia a mente do homem. O clipe nos mostra que ele está em seu leito de morte (Look up here, I’m in heaven) e não consegue mais abrir os olhos. Está permanentemente vendado, metaforicamente falando. A sua memória se tornou seus olhos. Se por fora ele já está frágil, seu interior está mais ainda (I’ve got scars that can’t be seen / I’ve got drama, can’t be stolen).

O homem faz suas preces para que alguém “o leve”, já que não tem mais nada o que perder em sua vida (Look up here, man, I’m in danger / I’ve got nothing left to lose). Devido ao estado precário em que sua mente se encontra, ele sente como se seu cérebro estivesse girando. É aqui que descobrimos que ele encontrou Sue em Nova Iorque, onde vivia como um rei em virtude de sua fortuna, mas que gastou todo seu dinheiro com ela, atraído pelo seu sexo. Por isso que teve de arranjar um emprego para sustentá-la, conforme é mostrado em ‘Sue (Or in a Season of Crime)’.

O clipe nos mostra que ela meio que o controlava (a cena em que ele age com movimentos robóticos). Parece que não é só agora que seus olhos estão vendados – eles sempre foram, por não enxergar o que Sue verdadeiramente era. Ele mostra seu anseio de ser liberado desta dor através da morte, acredita que apenas assim será livre (This way or no way / You know, I’ll be free / Just like that bluebird). Afinal, não foi isso que ele sempre quis? (Ain’t that just like me).


‘TIS A PITY SHE WAS A WHORE


Assim como 'Sue', essa música foi lançada ano passado. Porém, diferente dela, ‘Tis a Pity She Was a Whore era ridiculamente ruim. Tinha um som renitente de algum instrumento que parecia um brinquedo ou uma buzina que irritava de mais, não sei que merda os caras tavam na cabeça quando fizeram a mixagem dela.

Fico feliz que a versão de Blackstar dessa canção conseguiu melhorá-la infinitamente. Se tornou cativante e os “brinquedos” irritantes foram substituídos por notas de sax e sintetizador. Tá, a instrumentação dela ainda é meio sem padrão, mas isso é algo que faz dela interessante. E o Bowie tá literalmente nem aí pra qualquer crítica mesmo, fazendo uma música sobre uma puta que não conseguia largar o pau dele :v

 Ligação com a história

Ele respira. Será que está acordado? Sue era uma garota de programa em Nova Iorque, ou, como o homem coloca, uma vadia. É uma pena. Mas agora ele já superou isso. A melodia animada mostra que seu estado de espírito mudou, que agora ele está alegre, sentindo-se livre, especialmente da Sue, a quem se manteve atrelado durante sua vida. Mas só havia uma maneira disso acontecer...

OBS: O fato dessa canção ter sido lançada como lado B do single de ‘Sue’ reforça mais ainda a ligação entre as duas músicas.


BLACKSTAR


E o álbum começa assim, com o seu ponto mais alto – a faixa título. Quando foi lançado o clipe dessa música, todos que viram ficaram sem reação. Ninguém imaginou que Bowie apareceria com uma peça de sonoridade misteriosa que mistura jazz com eletrônica e rock de DEZ MINUTOS para promover seu novo álbum, muito menos que ela seria acompanhada de um clipe que você tem que tomar LSD pra tentar entender o que se passa. Esse é o camaleão do rock fazendo o que bem entende e literalmente tacando o foda-se para os padrões de rádio e de singles.

Tudo o que podemos fazer é agradecer por ter tido essa atitude, pois graças a sua audácia, essa música, em minha opinião, é uma das maiores obras-primas do artista. Sua estrutura dividida em atos; a sonoridade mística, meio desconcertante às vezes; a maneira magnífica como mescla gêneros diferentes; e claro, esse clipe espetacular cheio de simbologias, maneirismos e personagens que ficam na mente da pessoa. Ele até mostra o que o Major Tom se tornou!

De tão incomum e diferente, a música tinha tudo para ter sido recebida com maus olhos, mas Bowie arquitetou tudo de maneira tão perfeita que não houve brechas para más impressões. Quero ver outro artista conseguir este feito. Meus parabéns.

 Ligação com a história

“Algo aconteceu no dia em que ele morreu / Seu espírito se ergueu e deu um passo para trás”. A vida pós-morte não foi uma liberação completa como achou que seria. Em vez disso, o homem foi parar em um lugar que refletia a sua visão do mundo, que não era uma das melhores. Neste local, as mulheres eram o centro de tudo. Elas ajoelhavam para mostrar fidelidade, mas seu sorriso ambíguo indicava o contrário (Only women kneel and smile). Suas ações eram como execuções para seus alvos, visto que foi isso que fez com que ele morresse.

Após sua morte, alguém tomou seu lugar. Estaria este confinado ao mesmo destino que sofreu o homem rico? “Sou uma estrela negra”, o homem conseguia ouvi-lo gritar. Seria isso um sinal de que ele se tornara um símbolo? E então se apegou à ideia da simbologia. Isso despertou um breve devaneio nele, em que começou a lembrar do que era quando tinha vida e de como conquistou sua amada Sue (4:00 da música até 7:00). Todos seus atributos faziam dele uma estrela negra. Contudo, novamente, isso foi apenas um devaneio. Logo ele se viu confinado no local propiciado a ele após sua morte.

Neste lugar, existe uma vela solitária, na qual ele consegue enxergar os olhos de Sue. As vendas que o impossibilitavam de ver foram consigo até sua vida pós-morte. A maneira como a música termina mostra que ele estaria confinado a viver com isso para sempre.  ...Viver?
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E assim termina a história que se desenvolve ao longo das músicas. A ligação que enxerguei durante a primeira vez que ouvi o álbum era bem menor e mais vaga do que essa, mas ao ler a letra de algumas músicas, consegui esclarecer algumas coisas e ligar diversos pontos.

Claro que isso tudo pode ser apenas coisa da minha mente, portanto comente se você também viu alguma ligação entre as músicas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


No fim, o resultado de Blackstar é mais satisfatório que o The Next Day. Por mais que o álbum de 2013 tenha sido um choque por seu lançamento repentino, ele manteve-se muito atrelado ao rockzinho básico sem pretensões que Bowie fez em seus álbuns dos anos 2000, como se não houvesse tido o hiato de 11 anos entre eles.


Esse novo álbum, por outro lado, é audacioso e experimental como os trabalhos do artista nos anos 70. Ele mostra que, com 69 anos nas costas, Bowie não tem medo de ser ambicioso e inovar em seu estilo de música com um álbum que, de tão diferente que é seu som, cativa a todos aqueles que acompanharam todas as mudanças na carreira do camaleão do rock mais famoso do mundo.

-por Vinicius "vini64" Pires
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