domingo, 5 de junho de 2016

Anne of Green Gables


O diretor Isao Takahata dirigiu três séries para o World Masterpiece Theater, o grande marco da animação japonesa em que um livro da literatura ocidental era adaptado em formato de animação (séries, geralmente com um número de episódios por volta de 50) a cada ano. Duas dessas eu assisti ano passado e escrevi artigos para o blog, sendo elas Heidi e Marco. Depois de um ano, finalmente consegui assistir a última série desse grande diretor que tanto idolatro.

Anne of Green Gables é uma produção baseada no livro homônimo de 1908 da autora Lucy Maud Montgomery, talvez o romance mais conhecido do Canadá. Nesta adaptação, temos o deleite de conhecer a história de Anne Shirley, uma garotinha órfã ruiva que é adotada por um casal de idosos (irmão e irmã) para viver em uma vilazinha rural do Canadá. A série consiste em 50 episódios que vão mostrando o crescimento dessa menina desde os seus 11 anos até os 16.


PERSONAGENS

Personagens? Nah... Eu já falei isso para a série Marco em meu artigo, mas volto a reiterar aqui: os personagens dessa série não podem ser classificados simplesmente assim. Eles atravessam a barreira da ficção, nós os enxergamos como pessoas de carne e osso, próximas de nós, mais até do que alguns que convivem conosco. Conseguimos nos identificar com eles e compartilhar dos mesmos sentimentos...mas isso é algo que explorarei em outra seção deste artigo.

A titular garota de Green Gables se chama Anne Shirley. Oh, leitores, se vocês soubessem como ela é uma menina poética que gosta de fazer uso de palavras grandiosas para expressar seus pensamentos, frutos de sua imaginação fértil que não hesita em inventar nomes fantasiosos para qualquer local belo que encontra e situações românticas para romantizar os acontecimentos de sua vida tão mundana... Oh, leitores! Ela é tão dramática! Eu poderia estar escrevendo estas palavras do topo de um arranha-céu em Dubai durante uma tempestade torrencial e ainda assim não conseguiria descrever com fidelidade a maneira como Anne reage dramaticamente a qualquer situação!

Ohhh, e o seu cabelo! Vermelho como a chama incandescente da vela que ilumina a vida de um desolado gaúcho submergido na solidão dos pampas! E o seu rosto, com tantas sardas que parecem estar prestes a convergir e consumir sua face a fim de impedir que o mundo veja a sua miséria! Oh, meus dignos leitores, se apenas seu cabelo fosse preto como a escuridão do luar e seu nome fosse romântico como Cordelia Fitzgerald, talvez ela não sofresse tanto em sua vida lamentável......e essa foi minha impressão da maneira como a Anne se expressa :v


Apesar disso tudo ser a maneira como Anne se enxerga, não quer dizer que seja verdade, pois sua vida passa a ser muito melhor nessa fazenda de Green Gables. Nunca em sua vida havia tido alguém que cuidasse dela de verdade, nem mesmo tido amigos.

Seus tutores são dois irmãos em seus 60 anos de idade: Matthew e Marilla Cuthbert. Caracterizados impecavelmente, a diferença de personalidade entre os dois é gritante. A Marilla, apesar de ser mulher, é como se fosse o homem da casa. Ela é quem faz as regras e quem vai educar e criar a Anne. Com seu jeito rígido, essa senhora sempre procura cortar as asinhas da menina quando ela começa com seus devaneios imaginativos.


Contrastando completamente com sua irmã, Matthew é a pessoa mais tímida do mundo. Não consegue retrucar quando discorda da Marilla e jamais tenta fazer contato olho a olho com uma mulher, se não é capaz de desmaiar. Apesar disso, nem a sua timidez impediu que a garotinha ruiva tagarela cativasse seu coração durante seu primeiro contato com ela.



Como eu havia dito antes, Anne nunca havia tido uma amiga antes de chegar em Green Gables, exceto a Katie Maurice e a Violetta.....mas, a primeira era o seu reflexo no espelho e a outra era o seu eco nas montanhas. Foi então que entrou em sua vida uma garota chamada Diana Barry. A menina ruiva queria tanto, mas tanto uma amiga para quem pudesse confiar os seus mais íntimos segredos que pediu à Diana que fizesse um juramento de fidelidade para estabelecer a amizade delas como algo que duraria para sempre. Assim, as duas se tornaram amigas de alma.

"If you love me as I do
Nothing but death can part us two"

Anne também teve seu primeiro contato com uma escola apenas quando foi morar em Green Gables. E claro que mais amizades surgiriam de lá, não é mesmo? São introduzidas então mais diversas figuras tão bem articuladas e desenvolvidas que nunca esquecemos seus nomes ao longo da série. Temos a patricinha loirinha Ruby Gillis, a romântica indecisa Jane Andrews, a gordinha esnobe Josie Pye, o galã dedicado Gilbert Blythe, entre diversas outras personalidades da escola.


Eu poderia me estender por mais dez parágrafos falando sobre figuras marcantes como a professora Stacy, a tia Josephine Barry, a senhora Lynde, o ministro Allan e sua esposa, mas acho que o recado já foi dado – você não esquecerá de nenhum personagem de tão bem articulados que eles são.

E sabe quem é o responsável pelo design de personagens e pela animação chave destes? Um cara chamado Yoshifumi Kondo. Se você é fã do Studio Ghibli ou leu meu artigo sobre sua obra-prima Sussurros do Coração, sabe quem é este gênio. É graças a ele que temos diversos personagens memoráveis nos filmes do maior estúdio de animação japonês, tudo por causa de seus designs charmosos e convidativos. Em Anne isso não poderia ser diferente – além de contar com uma animação fluidíssima para 1979, as figuras são super bem desenhadas, cada uma com sua característica marcante, seja ela a vestimenta, um adereço ou suas expressões faciais.


E por falar em expressões faciais, esse é um dos elementos mais bem trabalhados dessa série. São incontáveis os momentos em que os sentimentos de uma pessoa são transmitidos não pelo diálogo e nem pela música, mas sim pela maneira como se expressa, como os traços de seu rosto estão articulados. Sim, existem séries que exploram este aspecto também, mas não de maneira sútil e realista como Yoshifumi Kondo faz, pois a maioria dos animes fazem uso de expressões exageradas para demonstrar os sentimentos, algo que está longe de ser encontrado em Anne of Green Gables.


ARTE

A série se passa majoritariamente em Avonlea, uma vila rural da província canadense Prince Edward Island, durante o século XIX. É lá que fica Green Gables, a fazenda onde vive Anne e os Cuthberts. O território é rodeado de natureza por todo lugar que você olhar. Árvores, flores, grama, lagos, rios, riachos, tudo de natural que você imaginar. A garotinha ruiva fica fascinada pelas paisagens logo ao seu primeiro contato, assim como quem está assistindo. É tudo tão bem desenhado, à aquarela e com cores suaves, contidas, sem nenhuma cor gritante como se costuma ver na maioria das animações. Isso vale para todos os cenários e personagens – você nunca vai ver cores fortes com saturação alta nessa série.


Quem conhece os trabalhos do Studio Ghibli sabe que os diretores retratam a natureza como a entidade mais importante do mundo. Sendo essa uma produção do Takahata, isso não poderia ser diferente. Ao longo da série, seis anos são retratados. Vemos todos os locais de Avonlea diversas vezes, durante as quatro estações do ano. A passagem do tempo é executada de maneira tão magnífica, mas com tamanha sutileza, que, quando nos damos conta, estamos reconhecendo os lugares da vila como se morássemos lá há muito tempo. Até passamos a reconhecer os locais que a Anne deu nome, como a nascente de rio Dryad’s Bubble, a passagem arborizada Lover’s Lane e o icônico lago The Lake of Shining Waters.

Essa ponte é mostrada tantas vezes ao longo da série, de dia, de tarde, de noite, no inverno, na primavera, no outono...


Outro aspecto trabalhado de maneira magistral aqui é a influência da iluminação e das sombras sob os elementos das cenas. São poucas as animações que conseguem transmitir de maneira tão realista a luz que o sol, a lua ou uma vela exercem sobre uma pessoa ou um local. Isso é mais evidente ainda nos planos situados durante o pôr-do-sol – você praticamente consegue se sentir ali de tão bem representado que é. A questão das sombras é mais bem executada nas cenas em que está tudo escuro, exceto pela luz da vela que ilumina uma porção da área ou o rosto do personagem. Pode parecer algo que é visto comumente em animações, mas são poucas as direções de arte que fazem você ficar impressionado com o que está vendo em tela, de tão bem efetuado que é. Seguem abaixo alguns exemplos:






Agora, algo que me fascina ao extremo é a atenção da equipe de produção aos detalhes minuciosos das ações dos personagens. Na maioria das animações, tudo que acontece em cena deve contribuir ao enredo, caso contrário é considerado desperdício de tempo. Dou graças aos céus para o fato de que a abordagem de direção do Takahata é completamente diferente.

Ele procura humanizar o máximo possível seus personagens ao colocar em cena ações triviais como alguém parando em frente a casa para limpar o sapato antes de entrar, batendo na calça para tirar a sujeira, pegando um taco de madeira de baixo do sofá para conseguir tirar a bota de seu pé, abrindo a janela e as portas de casa para que a fumaça do cachimbo se dissipe e depois andar até certo ponto para poder tossir, entre diversos outros detalhes que a maioria das pessoas podem achar desnecessários em uma animação, mas que para mim são de suma importância à tarefa de transmitir o quão humanos são os personagens.


ÁUDIO

Quanto à trilha sonora, temos nessa série um exemplo primordial de sinergia entre áudio e vídeo. As composições, que geralmente se repetem ao longo da série, são tocadas apenas quando necessário e ficam na sua mente após o término dos episódios. Mas te garanto que isso é uma coisa de se alegrar, pois as melodias são lindas e de tocar o coração. Todas elas são orquestradas e têm os instrumentos de corda como os principais. Algumas temas refletem tão bem o estado de espírito de certas figuras que você vai acabar se lembrando delas ao ficar com a música na cabeça durante o seu dia-a-dia. Pode ter certeza que é inspirador se recordar da Anne em qualquer situação da sua vida rotineira.

                     

Mesmo com canções tão graciosas, a equipe de produção sabe respeitar os momentos em que o silêncio é necessário. A maioria destes se da em circunstâncias nas quais o personagem precisa refletir sobre o que está acontecendo em sua vida. É o característico toque de realismo do Takahata. Aliás, eu acho até que existem mais cenas em silêncio do que com música. O fato é que em Anne of Green Gables o som da natureza se torna uma melodia quando unido das paisagens exuberantes de Avonlea.

A casa de Green Gables.

O trabalho de dublagem é outro elemento excepcional. Não tem como não amar a voz da Anne e não esboçar um sorriso sempre que ela diz “Oh, Marilla...”. Talvez demore um pouco para se acostumar com o som estridente dela, mas garanto que isso vai acontecer e você nunca mais vai se esquecer dessa voz. A dubladora é crucial ao processo de transmitir a personalidade dessa garota que cativa nossos corações, aliando sua voz ao design perfeito de Yoshifumi Kondo.

Talvez o único defeito que eu possa trazer à tona seja a dessincronia de alguns efeitos sonoros em certos momentos, como os sons de porta fechando, de xícara no prato, de líquido sendo servido, entre outros, porém isso é algo muito comum em animações antigas. Não é nada que vá subtrair a sua apreciação da série.

EMPATIA (ou VALOR EMOCIONAL)

(Aviso: Spoilers. Muitos deles. Recomendo não ler caso não tenha assistido a série.)

Anne of Green Gables é uma obra de arte simplesmente por causa deste aspecto: o sentimento de empatia que te domina ao assisti-la. Muitas séries e filmes animados precisam de uma jornada, um vilão, lutas e coisas do tipo para mover o enredo. Essa aqui não – é movida puramente pelo trabalho magnífico de desenvolvimento de personagens. O principal ponto da trama são os sentimentos das pessoas.

Aí vem alguém e me fala: “ah, eu chorei quando aquele personagem morreu”, “pow, eu sempre fico torcendo para aquele personagem vencer a luta”. Não. Isso não é empatia. Você sabe o que é se emocionar quando algo de bom acontece àquele personagem? Sabe o que é chorar de tão bonito que foi um certo momento da vida de um personagem? Sabe a sensação de compartilhar da tristeza daquela figura ao vê-la desolada? Sabe como é a vontade extrema de encorajar aquele personagem ao vê-lo desmotivado? Isso é empatia. Isso é o que você sente assistindo Anne of Green Gables. Você cria vínculos emocionais com os personagens.

Vamos começar falando do núcleo de toda a série: Anne Shirley. Acompanhamos a vida dela desde os 11 anos até os 16. Como eu já havia mencionado, esses cinco anos vão sendo representados de maneira tão natural que, ao fim do episódio 50, é como se tivessem passados cinco anos de verdade. E você conviveu com a Anne durante todo esse tempo. Você viu aquela garotinha tagarela poética dramática que ligava muito para a aparência se tornar uma donzela amável focada em seus estudos que guarda seus pensamentos para si mesma e não liga para a aparência. Quando você nota como ela ficou madura, vêm aquelas lágrimas ao se lembrar da menininha que vivia se metendo em confusões e fazendo coisas absurdas como bolo de medicamento e pintando o cabelo de verde.

Anne com 11 anos / Anne com 15 anos

Toda essa convivência com essa garota transcende a tela do monitor. Você a enxerga como uma pessoa próxima de ti a quem você sente extremo afeto e deseja todo o bem do mundo. Ela vira uma inspiração para quem assiste, pois se torna tão dedicada e certa de si, com uma personalidade mais que definida, que você acaba querendo segui-la como exemplo. Eu aprendi com ela que a vida faz mais sentido quando você tem uma ambição. Eu percebi por meio dela que sou feliz ligando para o que me faz feliz e não para aquilo que deixa os outros felizes.

"Você sente que a vida faz mais sentido quando se tem uma ambição."

São raras as séries que desenvolvem de maneira sútil e natural os laços de relação entre personagens, e mais raras ainda aquelas que conseguem transformar tais laços em algo que enchem seus olhos de lágrimas de tão lindo que é. Talvez uma das relações de amizade mais linda que já tenha visto tanto em alguma obra audiovisual quanto na vida real seja a de Anne e Diana. As duas são inseparáveis e compartilham dos mesmos sentimentos. Uma só quer ver o bem da outra. Quando ocorre algum conflito, é quando percebem o quão verdadeiro é o amor entre elas. O amor mais puro possível.

"A sua glória é a minha glória", frase que define perfeitamente essa linda relação.

Outro laço relacional que merece ser mencionado é o de Marilla e Anne. Desde o seu primeiro dia em Green Gables, essa senhora fez de tudo para educar a garotinha ruiva a fim de se tornar uma moça comportada e respeitável. Ela perdia a cabeça com as trapalhadas em que Anne se metia, adquiria dores de cabeça com frequência de tanto ouvi-la falar baboseiras românticas, poéticas e dramáticas, mas em momento algum a destratou. Passado algum tempo, a menina cresceu e deixou de fazer todas essas coisas que tanto a preocupavam. Isso aconteceu sem que ela nem percebesse. É então que percebe o quanto amava aquela garotinha e todo o seu comportamento errático. É aí que percebe como não conseguiria viver sem ela do seu lado. Marilla Cuthbert, a senhora rígida e durona de Green Gables, deixou seu coração amolecer por esta garota de cabelos ruivos.



Anne não se tornou uma filha só para Marilla, mas também para o seu irmão, Matthew. Apesar de já demonstrar afeto pela garota desde o primeiro contato, ele não conseguia se expressar direito devido à sua timidez. Era difícil de agradar ela no começo por causa deste problema, já que não conseguia nem comprar algo no centro da cidade por ter que olhar nos olhos de uma vendedora. Mas a convivência durante os anos e a dedicação de Anne em tudo que fazia era tida como uma inspiração para ele. Aos poucos, a gratidão de ter essa garota vivendo junto dele vai amenizando as dificuldades em se expressar. Matthew Cuthbert, o senhor mais tímido que existe, deixa a sua timidez de lado para agradar Anne, seu motivo de viver.


O fato é que ambos os Cuthberts amavam Anne mais que tudo na vida, cada um de seu jeito. Os dois são uns dos personagens mais bem desenvolvidos que já tive o prazer de acompanhar suas vidas em uma série. Essa família composta por Marilla, Matthew e Anne sempre estará no meu coração.


Devemos agradecer à direção de Isao Takahata por ter feito tudo isso possível, afinal, são pouquíssimos os diretores com essa abordagem realista para animações. Poucos sabem representar da maneira exata o processo árduo de se estudar para entrar na faculdade ou conseguir uma bolsa de estudos, a tensão da espera pelos resultados, a dificuldade de morar longe de sua casa e família para estudar, como lidar com a morte pela primeira vez, como consolar uma pessoa de idade que está perdendo as esperanças de viver... Tudo isso e diversas outras situações da realidade são mostradas nessa animação. É uma obra da vida real, mais do que qualquer produção live-action.


Tudo o que eu falei até então é o que me deixa puto pela situação em que se encontram as séries animadas de hoje em dia, sejam ocidentais ou japonesas. Porque elas não tem mais nada disso! Não são mais criados personagens com os quais você pode se identificar e se inspirar, não são mostradas situações que a pessoa já passou ou vai passar, não são mostradas relações dignas de se sentir afeto... Tudo o que importa agora é ter o máximo de ação e fantasia possível para entreter a criança, não mais mostrar a realidade de uma maneira que ela pudesse agregar aquilo e levar para a vida.

Ao criar um vínculo com a Anne, a criança certamente tomaria gosto por estudar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao fim do último episódio, meu coração disparou. Fiquei acabado. Mas, ao mesmo tempo, com uma sensação indescritível de gratidão e satisfação. É isso o que a última série de Isao Takahata para o World Masterpiece Theater proporciona a quem a assiste. Uma obra-prima capaz de mudar sua vida e seus valores, de te tornar uma pessoa melhor. Esse artigo não representa nem 10% da minha gratidão de poder ter assistido essa magnificência em forma de animação. Anne of Green Gables sempre terá um lugar especial dentro do meu coração, onde poucas obras vivem.



-por Vinicius "vini64" Pires

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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Nat disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bel Borges disse...

"Na maioria das animações, tudo que acontece em cena deve contribuir ao enredo, caso contrário é considerado desperdício de tempo."
Que bom que alguém repara nisso também. Não só em animações, em muitas obras audiovisuais, como filmes, novelas e séries, o cenário tem o único propósito de situar a cena e qualquer interação dos personagens com o cenário tem relação com o momento do enredo. Nessa série e em outros trabalhos do Takahata e do Miyazaki, os personagens VIVEM nos cenários, interagem com eles e tudo, isso contribui muito com essa sensação de realismo. Quando se trata de artes visuais, as pessoas costumam associar realismo a FOTORREALISMO, enquanto é muito mais que isso.

Um ponto que eu acho muito relevante no desenvolvimento da Anne é a influência feminina na vida dela. Pode achar que por ela ser uma garota e por ser uma história que se passa no fim do século 19, onde os papéis de homens e mulheres ainda eram bem separados, deveria ser natural ela olhar para outras mulheres como modelos a seguir, nesse sentido. No caso da Anne, vai um pouco além disso. Veja, por exemplo, a relação dela com a Marilla, a Diana, a sra. Allan e a srta. Stacy.

A Marilla é a figura materna E paterna, que se encarrega da criação da Anne, ela tem controle sobre os lugares que a Anne vai, os horários de brincar, os horários de cuidar da casa, a educação religiosa, bem como é quem a ensina a fazer as tarefas domésticas e a cozinhar. A Diana é o amor incondicional da vida da Anne, que, felizmente, é uma garota muito gentil e amável, e aceita participar do juramento repentino de lealdade e dá todo o amor de amiga e de irmã que tanto faltou na vida da Anne quando criança. A sra. Allan é o exemplo de pessoa que a Anne admira e consulta. Desde que o novo ministro e sua esposa chegaram em Avonlea, Anne só tinha olhos para ela, e, quando se conheceram, sua admiração ficou ainda maior. A srta. Stacy (muito mais legal no anime que no livro, diga-se de passagem) é a referência profissional da Anne. Quando o professor Phillips renunciou o cargo, a Anne achou o máximo que umA professorA daria aulas em Avonlea, para a preocupação da sra. Lynde e decepção da Ruby.

Não quero dizer que não existe influência masculina na vida dela, pois existem duas muito importantes. Matthew Cuthbert e Gilbert Blythe foram de suma importância para as conquistas da Anne na segunda metade da série. O Matthew acredita no sucesso dela e, à sua maneira, é carinhoso e compreensivo. O Gilbert, como rival, era seu maior incentivo nos estudos. Acho a relação da Anne com o Gilbert uma das mais interessantes de toda a série, inclusive, adorei o desenvolvimento e o desfecho.

A propósito, a Anne tinha ido à escola antes de ir a Avonlea sim, ela só estava um pouco atrasada em comparação aos alunos da mesma idade.